Foram encontradas 25 questões.
Which of the alternative(s) below is/are right, concerning to Postmethod Pedagogy?
I. It can be visualized as a three - dimensional system which consists of three pedagogic parameters: particularity, possibility and communicability.
II. The learner has an autonomous role and takes charge of his/her own learning by using a set of cognitive, metacognitive, and affective techniques for successful learning given by teachers.
III. A postmethod teacher education program must take into account the importance of recognizing the teachers’ voices and visions.
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A LÍNGUA IMPALPÁVEL
Cheguei no vale de U-ah-hu numa manhã de domingo – me fascinava o idioma humha, que conheci através dos escritos de Sapir e Kroeber. Todos os nativos me receberam muito bem. Aquele que parecia ser o pajé cantou para desejar boas-vindas; um ancião esfregou na minha testa um aquênio peculiar, rugoso, parecido com um caju, enquanto balbuciava uma cantiga. Ao longo da cerimônia, todos os habitantes cantavam, o tempo todo, melodias tortuosas. A música era onipresente – mas não foi pronunciada uma palavra sequer. Ou ao menos assim parecia.
Demorei a perceber que a música era palavra e vice-versa. Não havia nenhum sinal de consoante oclusiva, fricativa, alveolal, nada. O único traço distintivo de significados era a "altura" da voz, isto é, a nota em que ela era emitida. s vezes, uma diferença mínima, muito menor do que um semitom, mudava todo o significado de uma frase. Kroeber afirma que existem 35 fonemas diferentes num intervalo que, no piano, corresponde a menos de uma oitava.
Reuni três dos nativos que mais se mostravam interessados em me ajudar e mostrei uma valsa de Strauss. O estranhamento inicial surgiu, claro, do fato daquela pequena máquina emitir som. No entanto, logo em seguida, nas primeiras frases musicais, os três falantes explodiram em gargalhadas. Os ouvintes não conseguiam ver ali nada além de palavras tortas e estranhas, como uma criança brasileira quando ouve russo. Vez por outra parecia surgir na melodia de uma flauta uma frase completa do idioma humha. As crianças repetiam incansavelmente um trecho de Ravel que narraria, segundo elas, a história de uma senhora que se sentava em um repolho.
Toda cultura possui uma íntima relação com um ritmo particular, que guia a dança e os cerimoniais religiosos. Entre os falantes do humha, no entanto, a música não tinha qualquer função outra que comunicar. Nas cerimônias religiosas, reinava o silêncio. A música não tinha qualquer propriedade encantatória – representava o mundano, a comunicação trivial, objetiva. Tampouco havia dança, pois a música não dizia nada ao corpo.
O que mais custei a entender foi o fato de que, embora a música estivesse em todo lugar, ou justamente por isso mesmo, não havia música em lugar nenhum. Porque havia música o tempo todo, ninguém conseguia enxergá-la. A música não fazia dos Humha um povo mais feliz – ao contrário, percebi que havia entre eles uma falta incurável, um buraco impreenchível, onipresente. Era a música.
DUVIVIER, Gregório. A língua impalpável. In: Folha de São Paulo. 15 jun. 2015. Disponível em:<http://www1.folha.uol.com.br/colunas/gregorioduvivier/2015/06/1642096-a-lingua-impalpavel.shtml> .
De acordo com o texto:
I. O humha é um idioma peculiar porque é capaz de comunicar com apenas 35 fonemas diferentes que, em um intervalo de piano, corresponde a menos de uma oitava.
II. A forma de comunicação do idioma humha classifica-se como uma forma de comunicação não-verbal.
III. Embora a música esteja presente em todo lugar e seja utilizada o tempo todo na comunidade, não tem para o grupo nenhuma propriedade encantatória, uma vez que é compreendida apenas como um instrumento de comunicação.
IV. O idioma fascinou o autor dado ao modo como ele passou a ter conhecimento do mesmo, por meio dos escritos de Sapir e Kroeber.
Está(ão) correta(s):
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O texto a seguir serve de base para as questões 12 e 13.
QUE COISA FEIA, ZUCK. NINGUÉM PODE CURTIR MANIPULAÇÕES NO FACEBOOK
Vamos começar com uma promessa: não se defenderá, aqui, o papel que repórteres
inquietos e editores bem preparados desempenham na busca, filtragem e divulgação de notícias.
Atividade também conhecida como jornalismo, com todas suas fragilidades e urgências
tempestivas.e informações, o Twitter e o Facebook. Apresentadas como agentes supremamente
5 imparciais que apenas mostram os assuntos mais buscados pelos usuários, as redes sociais têm
vários rabos presos.
Um deles apareceu nos últimos dias, quando cinco ex-colaboradores do Facebook
contaram como havia sido sua experiência numa função descrita como “curadores de notícias”.
Nessa tarefa temporária, afirmam, a ser eventualmente substituída por algoritmos, eles tinham
10 que buscar e resumir as notícias mais buscadas, os trending topics.
Eram, na maioria, jovens saídos de faculdades de jornalismo de elite nos Estados Unidos,
portanto já alinhados com a visão liberal, no sentido americano, do mundo. Uma tendência
exacerbada pela orientação de que deveriam selecionar reportagens e artigos de publicações com
a mesma linha, como o New York Times e a revista Time.
15Potências da internet como o Drudge Report, mais à direita, não entravam na lista do
Facebook. Também ficavam fora personagens por quem os usuários demonstravam grande
interesse, como Lois Lerner, a alta funcionária da Receita Federal americana que coordenava a
perseguição a organizações de tendência conservadora que pediam o direito à isenção fiscal
garantido pela lei, um dos maiores escândalos do governo Obama.
20A manipulação também ocorria em sentido contrário. Em vez de suprimir, os “curadores”
incluíam temas que eram considerados importantes, mesmo que os usuários não estivessem
muito interessados, como as atividades do Black Lives Matter – as vidas dos negros são
importantes -, grupo radical que defende a morte de policiais como revanche pelos casos em que
negros são mortos, em reações excessivas ou não. A repercussão nas redes sociais do BLM –
25 falsamente anabolizada, agora se sabe – é considerada um fator importante em sua expansão.
Mark Zuckerberg já declarou apoio ao grupo e passou um sermão público em funcionários
do próprio Facebook que haviam substituído a sua denominação pelo mais inclusivo Todas as
Vidas são Importantes. Ele e todos os gênios bilionários do Vale do Silício apoiam a política de
portas abertas à imigração, pois dependem dos “indianos”, designação geral dos estrangeiros que
30 formam a base de sua mão-de-obra.
Zuck também é um clintonista militante e o pessoal do meio diz que fica nervoso quando
Jack Dorsey, do Twitter, toma posições mais “progressistas”. Em seu Conselho de Credibilidade e
Segurança, o Twitter tem dezenas de representantes de organizações sociais, inclusive algumas
dedicadas a vigiar “discursos perigosos”, manifestações que possam soar ameaçadoras para
35 alguma das muitas categorias que se consideram vitimizadas. Nenhuma delas, evidentemente, de
tendência mais à direita.
Depois das reportagens do site Gizmodo sobre a curadoria com cara de viciada do
Facebook, a Comissão de Comércio do Senado, presidida pelo republicano John Thune, pediu
explicações. Entre elas: “Os curadores de notícias do Facebook de fato manipularam o conteúdo
40 da seção Trending Topics, visando a excluir notícias relacionadas a pontos de vista
conservadores ou injetar conteúdo não no topo dos mais buscados?”.
Através do vice-presidente Tom Stocky, o Facebook negou tudinho. O sistema é orientado
a “não permitir a supressão de perspectivas políticas” e a “garantir a neutralidade”. Se tivessem
perguntado a jornalistas, saberiam que não existe “neutralidade” nem imparcialidade.
45 Estas são características obrigatórias na administração pública e no sistema judiciário. O
pilar fundamental do jornalismo é a credibilidade, Zuck. Se os seus 600 milhões de usuários
descobrirem que o Face anda escondendo coisas por motivos políticos, você pode ficar com a
cara no chão.
(Por: Vilma Gryzinski 11/05/2016 às 12:08 em http://veja.abril.com.br/blog/mundialista/que-coisa-feia-zuck-ninguem-pode-curtirmanipulacoes-no-facebook/).
Assinale, entre as alternativas abaixo, a que NÃO está de acordo com o texto Que coisa feia, Zuck. Ninguém pode curtir manipulações no Facebook:
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Os excertos a seguir pertencem ao texto Desconfiamos mais dos políticos quando estamos com sono – Fica mais difícil dar trela para discursos carismáticos depois de uma noite mal dormida, escrito pela jornalista Ana Carolina Leonardi, publicado em 28/06/2016 no site da revista Super Interessante (disponível em: <http://super.abril.com.br/comportamento/desconfiamos-mais-dos-politicos-quando-estamos-com-sono>). Analise-os a seguir:
I. O impacto é muito maior do que um simples mau humor matinal. Nossa percepção sobre o carisma de uma pessoa influencia o quanto estamos dispostos a aceitar sua autoridade. O que o estudo indica é que uma única madrugada agitada aumenta a desconfiança e diminui o respeito pelo líder sem que nada no seu próprio comportamento tenha mudado.
II. Os pesquisadores destacam ainda que quem não dorme dificilmente reconhece que seu comportamento estranho no dia seguinte está relacionado com a falta de sono e preferem atribuir as sensações negativas a outras razões. É isso que eles acham que acontece com os políticos: o cidadão insone transfere seu sentimento ruim para o líder e atribui os efeitos da falta de sono à falta de carisma.
III. Para medir o impacto dos Zzzs da nossa opinião sobre políticos, os pesquisadores convocaram líderes estudantis para simular discursos cativantes. As cenas foram filmadas e cada vídeo recebeu uma nota quanto ao nível de carisma dos "políticos". Depois, os cientistas mostraram os vídeos a outros estudantes, divididos em dois grupos. O primeiro, na noite anterior ao estudo, acordou de hora em hora, das dez da noite às cinco da manhã, para preencher uma pesquisa. O outro grupo teve direito a uma noite normal de sono.
IV. E não é só o público que é afetado pelo sono. Além dos vídeos usados no primeiro experimento, os cientistas tinham outros 80 discursos de líderes estudantis gravados. Metade dessas fitas mostravam universitários que também tinham passado a madrugada respondendo pesquisas. As consequências foram claras: o líder que não dormiu direito teve avaliações muito piores que os bem dormidos.
V. O carisma está entre as características mais importantes para um político. Natural, treinado ou fingido, o carisma estimula o respeito e o orgulho entre os seus seguidores e até passa a impressão de que o líder tem uma "missão extraordinária" - o próprio Hitler chegou tão longe por, infelizmente, ser um líder carismático. Mas existe um antídoto comprovado até para o maior dos carismas: o sono. Nem a mais trabalhada retórica é capaz de inspirar um público sonolento, comprovou um estudo americano publicado no Journal of Applied Psychology.
VI. Isso porque, para dar uma boa impressão ao público e fazer um discurso emocionante, o político precisa usar o centro emocional do cérebro, a amígdala. Sono de má qualidade afeta a atividade dessa área cerebral, dificulta as conexões entre diferentes regiões do cérebro e piora o autocontrole. Assim, fica difícil reproduzir um discurso que seja, ao mesmo tempo, bem ensaiado e contagiante. A combinação dos dois experimentos confirmaram o que os pesquisadores esperavam: com a falta de sono, você fica cansado demais tanto para inspirar quanto para ser inspirado.
VII. Chegando no laboratório, cada participante assistiu a três vídeos: um com um líder muito carismático, outro com um orador moderado e outro com uma performance ruim. Depois, eles deram suas próprias opiniões sobre o nível de carisma do político que falou. No resultado, não importou a qualidade do discurso: quem não dormiu direito a noite deu notas muito piores aos líderes do que o grupo que teve uma boa noite de sono.
A sequência adequada para o texto, conservando a coesão e a coerência textuais, é:
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O texto a seguir serve de base para a questão 10.
SAIBA COMO FUNCIONA O BOOK4YOU, O TINDER DOS LIVROS
Pela plataforma, é possível conhecer novos títulos; ferramenta, que por enquanto funciona só no PC, terá aplicativo para celular lançado em breve
No Tinder, você escolhe o ícone do coração quando o perfil de um potencial parceiro lhe parece agradável. Como o espaço para a descrição não costuma ser preenchido por todo mundo, a aparência é o principal atributo avaliado. Já no Book4you, plataforma que transporta o formato do aplicativo de encontros para conhecer novos livros, nenhum título é avaliado pela capa. Mesmo.
Pelo mecanismo do Book4You, lançado em novembro do ano passado e em ainda em fase beta, o usuário navega por algumas listas, como por exemplo “para ler na chuva”, “já li esse filme” e “pra nerd conhecer”, em uma experiência semelhante às playlists oferecidas pelo Spotify. A partir daí, tem acesso a uma sinopse. Se gostar da breve descrição, clica em coração. Se a premissa não agradar, segue o mesmo protocolo do Tinder: clica no X e parte para outra sugestão.
A diferença é que o usuário tem “match” com todas as descrições com as quais se identificar – no aplicativo de relacionamentos, os dois usuários precisam clicar em “coração” para que possam bater papo. No Book4you, a partir daí, são revelados capa e links para compra nas lojas Amazon, Livraria Cultura, Saraiva e Submarino. O candidato a leitor também pode catalogar os livros apresentados de três maneiras: “já li”, “lista de compras” e “tenho na estante”, mas, por ora, ainda não pode editar essas “prateleiras”.
Até o fechamento desta matéria, 65.200 usuários estavam cadastrados, com crescimento diário de 800 a 1.000 usuários. O número de vendas, porém, ainda é baixo. “Nesta versão beta identificamos vários motivos que levam a essa baixa conversão. Na próxima versão, com todas as melhorias implementadas, aumentaremos gradativamente”, acredita Cássio Bartolomei, fundador do Book4You. “Vale ressaltar que o objetivo principal não é em vendas e sim em experiência do usuário, engajamento e uso da plataforma”, completa.
Nova fase
Por enquanto, a plataforma só funciona na versão desktop, mas deve também ter um aplicativo para celulares em breve. O lançamento deve sair em 30 dias. No mesmo prazo, o site também deve ganhar design, funções e layout novos. Entre as novidades está a exibição dos preços nas lojas, a opção de seguir as listas de assuntos para saber sobre as atualizações e a edição dos títulos já lidos. Outra ferramenta que vai passar a funcionar é o filtro por gênero, que vai possibilitar que o usuário personalize suas listas.
O conteúdo é gerenciado pela jornalista Maria Fernandes Rodrigues, que é sócia de Bartolomei ao lado de Thiago Porto, da PerSe, plataforma de publicação de livros. “A curadoria é voltada para momentos e sentimentos, não somente no gênero literário. Não existem prioridades, se existe um livro que faz sentido para a plataforma ele entra, independentemente de editora e autor”, conta Bartolomei.
Nenhum gênero é vetado, embora ainda não estejam todos disponíveis nesta versão. “A intenção é fazer com que o Book4you tenha um acervo bem pulverizado com todos os tipos de livros disponíveis”, diz o empresário.
Beco dos Livros
A gênese do aplicativo foi o Beco dos Livros, que tinha uma fanpage com 80 mil membros e 400 mil curtidas no Facebook. Bartolomei arrematou a página em 2013 de outro usuário, após deixar o trabalho em um banco. “Busquei empregos mas foi difícil encontrar. Decidi fazer alguma coisa por conta própria e escolhi livros pois acredito ser um mercado potencial principalmente porque no Brasil a literatura não é difundida”, afirma. Seguiu o trabalho do antigo dono, publicando trechos de livros, e acabou ganhando nome - e faturamento - junto ao mercado livreiro.
Com o público direcionado conquistado, ele e os sócios chegaram à ideia. Foi feita uma pesquisa com cerca de 4.000 pessoas e, com a ajuda da aceleradora de startups MidStage Ventures, estava criada a nova empresa. A transição do Beco dos Livros foi gradual, mas, bem aceita, afirma Bartolomei. “Nós planejamos e fomos com cautela em todas as redes sociais para não desagradar aos usuários e mantivemos muitos conteúdos parecidos”, conta.
CORRÊA, Angela. Especial para a Gazeta do Povo. Saiba como funciona o Book4you, o Tinder dos livros. In: Gazeta do Povo. 22 jun 2016. Disponível em <http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/literatura/saiba-como-funciona-o-book4you-o-tinder-dos-livros-2yheyluhntmrwyvvh70d8mzt8>:
A descrição de uma plataforma construída no ciberespaço para a prática de indicação de leituras, realizada no texto Saiba como funciona o Book4you, o Tinder dos livros, é uma exemplificação dos processos literários que ocorrem por meio da convergência dos meios de comunicação, cultura participativa e inteligência coletiva. As citações a seguir são afirmações de teóricos, críticos literários e escritores acerca das práticas literárias que circulam por multimeios e de suas contribuições para a construção de identidades culturais. Assinale a única alternativa cuja perspectiva teórica NÃO se enquadra no caso do Book4you:
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ENCONTRO COM OSWALD
Na rua do Ouvidor, entre a avenida Rio Branco e a rua da Quitanda, ficava naquela época a Livraria José Olympio, onde, certa tarde, deparei com Graciliano Ramos, sentado numa cadeira e fumando cigarro.
Foi ali também que, poucos meses depois, comprei um exemplar de "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade, a preço de refugo. Havia, num canto, uma ruma de exemplares do livro, postos em liquidação.
Levei o livro para casa e, ao lê-lo, surpreendeu-me a linguagem saborosa do autor. Disse isso a Mário Pedrosa, que concordou comigo e me emprestou um exemplar do livro de poemas de Oswald, "Pau Brasil". Era um volume pequeno, quadrado, tendo na capa o losango da bandeira brasileira. Fascinou-me o sabor de mato verde que experimentei ao ler os seus versos.
Naquela época, morávamos num mesmo quarto de uma pensão no Catete, eu, Oliveira Bastos e Carlinhos Oliveira. Falei de Oswald com Bastos, que era então um jovem crítico literário, e lhe dei para ler os livros dele. Bastos também se encantou e, assim, Oswald, cujos livros àquela altura quase ninguém comprava, tornou-se nosso ídolo.
Era o ano de 1954, e eu dera por terminado "A Luta Corporal", que seria editado naquele mesmo ano, às minhas custas. E foi então que ocorreu um fato inusitado: no dia 10 de setembro, data de meu aniversário, fui comemorá-lo na casa de Amelinha, minha namorada, que morava num pequeno apartamento na Rua Fialho, na Glória.
Aí tocou a campainha, ela foi abrir a porta e invade a casa um sujeito grandalhão, em mangas de camisa e suspensórios, rindo às gargalhadas: era nada mais nada menos que Oswald de Andrade. Ele avançou para mim e me abraçou.
Atrás dele, contendo o riso, entrou Oliveira Bastos, o autor daquela proeza. Sem nada me dizer, pediu-me uma cópia do meu livro inédito de poemas e o levou a Oswald, em São Paulo.
"Adorei seus poemas", disse-me o poeta, "e direi isso em Genebra, este ano, onde darei um curso sobre a literatura brasileira. Vou concluí-lo falando de 'A Luta Corporal'".
Se eu já estava atordoado com a inesperada presença dele ali, no dia de meu aniversário, essa notícia me pôs a nocaute. Não sabia o que dizer nem o que fazer.
"Sua poesia tem o sabor de folha verde" – foi tudo o que pude falar, antes que ele de novo me abraçasse e fosse embora. Nunca mais o vi, mesmo porque, um mês depois, ele morria em sua casa, em São Paulo.
Isso que acabo de contar explica por que, no ano seguinte, quando almocei com Augusto de Campos, na Spaghetlândia, no Rio, discordei de sua opinião sobre Oswald de Andrade. Era a opinião generalizada que o meio intelectual tinha dele, e com alguma razão. De fato, Oswald era autor de uma série de proezas que levavam as pessoas a vê-lo como um irresponsável, e até como mau-caráter.
Por isso disse, naquela ocasião, que não me referia à pessoa de Oswald, mas à qualidade de sua literatura.
E o resultado dessa conversa foi que ele certamente foi reler Oswald e sem dúvida percebeu suas qualidades de escritor, reviu sua opinião sobre ele e, juntamente com Haroldo e Décio, contribuiu para a redescoberta e valorização de sua obra.
Realmente, Oswald não era um exemplo da seriedade que costuma distinguir os grandes homens. Ele era, pode-se dizer, um tanto irresponsável, como demonstra aquele episódio quando, discutindo com alguém, para ganhar a discussão, atribuiu a Mário de Andrade a opinião de que Villa-Lobos era um compositor medíocre. Interpelado por Mário, que nunca dissera aquilo, respondeu: "Eu menti". Diante disso, Mário não pôde fazer outra coisa, senão rir.
A verdade é que, se admiro o escritor Oswald de Andrade, tenho também simpatia por seu jeitão irresponsável. E com toda a razão porque, se ele não fosse meio brincalhão, meio moleque, não teria ido me abraçar no dia de meu aniversário, numa quitinete na Rua Fialho, no bairro da Glória. Gente séria não faz essas coisas.
GULLAR, Ferreira. Encontro com Oswald. In: Folha de São Paulo, 12 jun. 2016. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ferreiragullar/2016/06/1780387-encontro-com-oswald.shtml>.
A alternativa correta, quanto aos aspectos que envolvem a construção da coesão e da coerência do texto Encontro com Oswald, é:
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ENCONTRO COM OSWALD
Na rua do Ouvidor, entre a avenida Rio Branco e a rua da Quitanda, ficava naquela época a Livraria José Olympio, onde, certa tarde, deparei com Graciliano Ramos, sentado numa cadeira e fumando cigarro.
Foi ali também que, poucos meses depois, comprei um exemplar de "Serafim Ponte Grande", de Oswald de Andrade, a preço de refugo. Havia, num canto, uma ruma de exemplares do livro, postos em liquidação.
Levei o livro para casa e, ao lê-lo, surpreendeu-me a linguagem saborosa do autor. Disse isso a Mário Pedrosa, que concordou comigo e me emprestou um exemplar do livro de poemas de Oswald, "Pau Brasil". Era um volume pequeno, quadrado, tendo na capa o losango da bandeira brasileira. Fascinou-me o sabor de mato verde que experimentei ao ler os seus versos.
Naquela época, morávamos num mesmo quarto de uma pensão no Catete, eu, Oliveira Bastos e Carlinhos Oliveira. Falei de Oswald com Bastos, que era então um jovem crítico literário, e lhe dei para ler os livros dele. Bastos também se encantou e, assim, Oswald, cujos livros àquela altura quase ninguém comprava, tornou-se nosso ídolo.
Era o ano de 1954, e eu dera por terminado "A Luta Corporal", que seria editado naquele mesmo ano, às minhas custas. E foi então que ocorreu um fato inusitado: no dia 10 de setembro, data de meu aniversário, fui comemorá-lo na casa de Amelinha, minha namorada, que morava num pequeno apartamento na Rua Fialho, na Glória.
Aí tocou a campainha, ela foi abrir a porta e invade a casa um sujeito grandalhão, em mangas de camisa e suspensórios, rindo às gargalhadas: era nada mais nada menos que Oswald de Andrade. Ele avançou para mim e me abraçou.
Atrás dele, contendo o riso, entrou Oliveira Bastos, o autor daquela proeza. Sem nada me dizer, pediu-me uma cópia do meu livro inédito de poemas e o levou a Oswald, em São Paulo.
"Adorei seus poemas", disse-me o poeta, "e direi isso em Genebra, este ano, onde darei um curso sobre a literatura brasileira. Vou concluí-lo falando de 'A Luta Corporal'".
Se eu já estava atordoado com a inesperada presença dele ali, no dia de meu aniversário, essa notícia me pôs a nocaute. Não sabia o que dizer nem o que fazer.
"Sua poesia tem o sabor de folha verde" – foi tudo o que pude falar, antes que ele de novo me abraçasse e fosse embora. Nunca mais o vi, mesmo porque, um mês depois, ele morria em sua casa, em São Paulo.
Isso que acabo de contar explica por que, no ano seguinte, quando almocei com Augusto de Campos, na Spaghetlândia, no Rio, discordei de sua opinião sobre Oswald de Andrade. Era a opinião generalizada que o meio intelectual tinha dele, e com alguma razão. De fato, Oswald era autor de uma série de proezas que levavam as pessoas a vê-lo como um irresponsável, e até como mau-caráter.
Por isso disse, naquela ocasião, que não me referia à pessoa de Oswald, mas à qualidade de sua literatura.
E o resultado dessa conversa foi que ele certamente foi reler Oswald e sem dúvida percebeu suas qualidades de escritor, reviu sua opinião sobre ele e, juntamente com Haroldo e Décio, contribuiu para a redescoberta e valorização de sua obra.
Realmente, Oswald não era um exemplo da seriedade que costuma distinguir os grandes homens. Ele era, pode-se dizer, um tanto irresponsável, como demonstra aquele episódio quando, discutindo com alguém, para ganhar a discussão, atribuiu a Mário de Andrade a opinião de que Villa-Lobos era um compositor medíocre. Interpelado por Mário, que nunca dissera aquilo, respondeu: "Eu menti". Diante disso, Mário não pôde fazer outra coisa, senão rir.
A verdade é que, se admiro o escritor Oswald de Andrade, tenho também simpatia por seu jeitão irresponsável. E com toda a razão porque, se ele não fosse meio brincalhão, meio moleque, não teria ido me abraçar no dia de meu aniversário, numa quitinete na Rua Fialho, no bairro da Glória. Gente séria não faz essas coisas.
GULLAR, Ferreira. Encontro com Oswald. In: Folha de São Paulo, 12 jun. 2016. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ferreiragullar/2016/06/1780387-encontro-com-oswald.shtml>.
Sobre o texto Encontro com Oswald é correto afirmar que:
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A CONFISSÃO
Tarde da noite. Tempo, dinheiro e prestígio eram coisas que aquele velho tinha em abundância. Graças a seus feitos, era respeitado por todo o reino, da família real aos mais humildes lenhadores. Durante os longos meses de inverno que massacraram aquela terra, sua casa era uma das únicas a receber queijos, frutos e aves frescas enviadas pelo governo. Qualquer coisa que quisesse obter ali, desde um simples pedaço de pão às terras do próprio rei, já se via quitada pela gratidão que todos lhe deviam.
Mesmo sendo tão afortunado, o velho se sentia ainda mais vazio do que nos tempos de pobreza e mais miserável do que os vendedores de fósforos que morriam de frio pelas ruas. Pois, desde que perdera o único filho, sua vida se transformara numa tediosa espera por notícias, que jamais chegavam, ou pelo fim, o que viesse primeiro.
Quis o destino enviá-los em comitiva.
O velho ouviu batidas vindas do andar térreo. Pegou sua antiga lamparina para iluminar o caminho, desceu e abriu a porta para o xerife, que disse sem cerimônia:
“Senhor... creio que o encontramos!”
O maltratado coração do velho disparou. Ele arrumou os óculos no rosto, franziu a testa e perguntou:
“Como sabeis que é ele?”
“Fizemos o que mandaste. Apenas seguimos a trilha de sangue, até encontrarmos uma pobre viúva, cujo marido fora assassinado. A partir do relato da desamparada mulher, pudemos encontrar o suspeito, e ele se entregou sem a menor resistência. Contudo...”
“Contudo o quê?”
“... há algo que não encaixa na história. Pois, além deste crime horrendo, ele ainda confessou outro, sem sequer ter sido questionado. Simplesmente desatou a falar, de maneira sádica, satisfeita, até prazerosa. Certamente te lembras da pobre menina dos cachinhos dourados...”
“Claro”, respondeu o velho, lamentando-se. “A pobrezinha que foi devorada por ursos!”
“Pois bem, segundo o... hã, suspeito, não se tratou de um simples acidente, mas de uma ação premeditada!”
O velho, que amava crianças, tirou os óculos e esfregou os olhos.
“Céus!”
“Infelizmente, meu relato não acaba aqui. O meliante afirma ainda estar ligado a diversos outros crimes, especialmente fraudes, como a dos sete gigantes supostamente assassinados. Mas, em todos meus anos de polícia, acho difícil crer que um único ser humano, que tem no máximo 19 ou 20 anos, tenha sido capaz de acumular tamanho currículo de perversidades, por mais endemoniado que seja!”
“Tu não o conheces, caro xerife! Não sabes o que ele fez comigo nem do que é capaz!”, disse o velho, pegando seu casaco e seu chapéu. “Vamos até lá, tenho contas a ajustar!”
O xerife levou o velho até o calabouço, onde os piores tipos encontrados no reino eram aprisionados. Assassinos, charlatões e adoradores do diabo dividiam seus claustros com baratas, ratazanas e sócios corruptos, aguardando a execução em praça pública que tanto apetecia os cidadãos.
Cada passo por aqueles corredores abafados e úmidos era uma tortura para o velho. Mas sem sombra de dúvida ele preferia ficar preso ali a encarar o que veria a seguir. Dentro de um claustro, amarrado a uma cadeira, estava um rapaz magro, de tez morena como um pinheiro, olhos azuis e cabelos lisos e negros, encharcados pelo suor que lhe caía sobre os olhos.
“Eu assumo daqui, xerife. Vai descansar”, ordenou o velho.
“Por favor, lembra-te de nosso acordo!”, pediu o xerife, tirando do bolso um enorme molho de chaves. Abriu as grades do claustro e o velho entrou, acompanhado por dois guardas. Virou-se e fez sinal para que saíssem também. Eles olharam para o chefe, em busca de aprovação, e deixaram o ancião a sós com o marginal.
Olhou para o rapaz amarrado diante de si. Durante vários minutos, as goteiras e a respiração eram os únicos sons que se ouvia. As lembranças dos dias felizes ao lado do filho inundaram sua mente, mas ele conteve as lágrimas, prendendo a respiração. Esfregando a mão na testa, disse:
“O que houve com meu filho?”
Nenhuma resposta.
A cada palavra, o velho elevava o tom de voz:
“O que houve com meu filho!?”
Nada.
O velho percebeu que era inútil gritar.
“Que diabos estás tentando fazer?”
O rapaz jogou a cabeça para trás, mas estava apenas tentando tirar a franja molhada de suor da frente dos olhos. Tornou a baixar o queixo.
“Tu não vais escapar desta vez. Finalmente vais responder por todas tuas fraudes e crimes.”
Silêncio.
“O pobre gigante. Ele era meu amigo. E tu subiste num pé de feijão até a casa dele só para matá-lo?”
O rapaz enfim reergueu o queixo, encarou o velho e desatou a falar:
“Sim! Mas, antes disso, resolvi roubar todo o ouro que o desgraçado possuía!” Ele mal cabia em si. “Depois roubei sua galinha que botava os ovos de ouro. Preciso dizer o que eu fiz com ela?”
“Maldito, a galinha era um presente dos céus para os homens, que poderia pôr fim à fome que há anos assola nosso reino! O que tua mente deturpada fez? Tu a abriste querendo os ovos?”
“Abrir? Mas é claro que não! Desde quando me importo com ouro? Primeiro, eu quebrei-lhe o pescoço, e deleitei-me ao vê-la girar desesperadamente no chão ao redor do próprio eixo. Depois, enfiei-a num buraco e, em seguida, ateei fogo, ha, ha, ha!”
“Ateou fogo? Que espécie de ser humano és tu?”
“Oras, tu bem sabes a resposta para essa pergunta!”
A fúria do velho estava prestes a transbordar. Ele sentia seu coração palpitando, o braço formigando, sabia que um infarto se aproximava, mas, no fundo de seu ser, ele não se importava mais. Viver ou morrer naquela noite era indiferente.
“E a menina dos cachinhos dourados? Também foste tu?”
“Não. Ao menos, não exatamente. Quem matou a intrometida foram os ursos. Eu apenas disse a ela o que encontraria na casa: três pratos de mingau, três cadeiras, três camas e ninguém para importuná-la. Quando a pirralha entrou, eu só alertei os ursos que ela estava lá, ha, ha, ha!”
“E a amiga dela?
“Ah, a do capuz vermelho? Menininha irritante. Não me admira que o pai dela tenha deixado-a sozinha na floresta!”
“O que fizeste com ela?”
“Eu? Eu não fiz nada. Mas nada posso dizer pelo lobo que seguiu minha dica, ha, ha, ha!”
“Miserável, como podes rir de uma situação dessas? Será possível que não tens coração!?”
“Ha, ha, ha", gargalhou o rapaz, histericamente. “Logo TU vens me perguntar isso?”
Mais do que a confissão dos crimes, aquelas palavras fizeram o velho finalmente perder o controle. Cerrou o punho direito e desferiu um golpe no rosto do suspeito, que urrou cuspindo sangue e dentes.
Do corredor, os guardas se prepararam para entrar, mas foram impedidos pelo xerife.
“Isso é entre eles!”, censurou.
O velho desferiu outro golpe, depois mais outro e mais outro, até se tornarem incontáveis como as lágrimas que finalmente se libertaram e desceram furiosamente por seu rosto.
“Tu querias chamar minha atenção?”
“Na verdade, sim, eu quer...”
“Pois conseguiste! Conseguiste! Miserável! Maníaco! Assassino!”, berrou o velho, massacrando o rapaz.
Por mais que o esmurrasse repetidamente, o velho sentia como se estivesse num sonho, e nenhum dos socos saía com a força que refletia seu perturbado estado de espírito. E, pior, nada era capaz de tirar o sorriso cínico do suspeito, que o mantinha mesmo depois de perder os dentes da frente.
Sem se importar com o que fora acordado com o xerife, o velho o agarrou pelas cordas e o empurrou com tudo para o lado, em cima de uma poça. Em seguida, chutou-lhe o estômago e o viu agonizar em busca de oxigênio enquanto a água suja espirrava em sua boca.
“Desgraçado! Por que fazes isso? Por quê? POR QUÊ?!”
Então, a criatura disse as palavras que ecoariam na mente do velho até sua morte:
“PORQUE EU TE ODEIO!”
Tão logo ele as pronunciou, seu sorriso cínico desapareceu e ele desabou a chorar. As lágrimas que escorriam de seus olhos azuis não eram de remorso, pois isso era algo que não sentia desde o dia em que perdera o grilo de sua consciência. Eram lágrimas de derrota, envergonhadas pelo nariz que crescia em seu rosto e já atingia quase um palmo. Dentre tantas confissões horripilantes e verdadeiras, ele contou a única mentira daquela noite, a maior mentira que um filho poderia contar ao pai.
O velho Gepeto deixou o claustro, consternado. Agradeceu ao xerife e pediu que se assegurasse de que o criminoso jamais deixaria aquele local.
Voltou a sua oficina. Foi encontrado morto no dia seguinte.
(FOBIYA, Abu. A confissão. In: Branca dos Mortos e os sete zumbis. Curitiba: Nerdbooks, 2012.)
No enunciado “O velho, que amava crianças, tirou os óculos e esfregou os olhos.”, o termo em destaque é um pronome relativo que estabelece relação coesiva com outro termo anteriormente citado no período. Em qual das orações a seguir o elemento retomado pelo pronome em destaque exerce essa mesma função sintática?
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A CONFISSÃO
Tarde da noite. Tempo, dinheiro e prestígio eram coisas que aquele velho tinha em abundância. Graças a seus feitos, era respeitado por todo o reino, da família real aos mais humildes lenhadores. Durante os longos meses de inverno que massacraram aquela terra, sua casa era uma das únicas a receber queijos, frutos e aves frescas enviadas pelo governo. Qualquer coisa que quisesse obter ali, desde um simples pedaço de pão às terras do próprio rei, já se via quitada pela gratidão que todos lhe deviam.
Mesmo sendo tão afortunado, o velho se sentia ainda mais vazio do que nos tempos de pobreza e mais miserável do que os vendedores de fósforos que morriam de frio pelas ruas. Pois, desde que perdera o único filho, sua vida se transformara numa tediosa espera por notícias, que jamais chegavam, ou pelo fim, o que viesse primeiro.
Quis o destino enviá-los em comitiva.
O velho ouviu batidas vindas do andar térreo. Pegou sua antiga lamparina para iluminar o caminho, desceu e abriu a porta para o xerife, que disse sem cerimônia:
“Senhor... creio que o encontramos!”
O maltratado coração do velho disparou. Ele arrumou os óculos no rosto, franziu a testa e perguntou:
“Como sabeis que é ele?”
“Fizemos o que mandaste. Apenas seguimos a trilha de sangue, até encontrarmos uma pobre viúva, cujo marido fora assassinado. A partir do relato da desamparada mulher, pudemos encontrar o suspeito, e ele se entregou sem a menor resistência. Contudo...”
“Contudo o quê?”
“... há algo que não encaixa na história. Pois, além deste crime horrendo, ele ainda confessou outro, sem sequer ter sido questionado. Simplesmente desatou a falar, de maneira sádica, satisfeita, até prazerosa. Certamente te lembras da pobre menina dos cachinhos dourados...”
“Claro”, respondeu o velho, lamentando-se. “A pobrezinha que foi devorada por ursos!”
“Pois bem, segundo o... hã, suspeito, não se tratou de um simples acidente, mas de uma ação premeditada!”
O velho, que amava crianças, tirou os óculos e esfregou os olhos.
“Céus!”
“Infelizmente, meu relato não acaba aqui. O meliante afirma ainda estar ligado a diversos outros crimes, especialmente fraudes, como a dos sete gigantes supostamente assassinados. Mas, em todos meus anos de polícia, acho difícil crer que um único ser humano, que tem no máximo 19 ou 20 anos, tenha sido capaz de acumular tamanho currículo de perversidades, por mais endemoniado que seja!”
“Tu não o conheces, caro xerife! Não sabes o que ele fez comigo nem do que é capaz!”, disse o velho, pegando seu casaco e seu chapéu. “Vamos até lá, tenho contas a ajustar!”
O xerife levou o velho até o calabouço, onde os piores tipos encontrados no reino eram aprisionados. Assassinos, charlatões e adoradores do diabo dividiam seus claustros com baratas, ratazanas e sócios corruptos, aguardando a execução em praça pública que tanto apetecia os cidadãos.
Cada passo por aqueles corredores abafados e úmidos era uma tortura para o velho. Mas sem sombra de dúvida ele preferia ficar preso ali a encarar o que veria a seguir. Dentro de um claustro, amarrado a uma cadeira, estava um rapaz magro, de tez morena como um pinheiro, olhos azuis e cabelos lisos e negros, encharcados pelo suor que lhe caía sobre os olhos.
“Eu assumo daqui, xerife. Vai descansar”, ordenou o velho.
“Por favor, lembra-te de nosso acordo!”, pediu o xerife, tirando do bolso um enorme molho de chaves. Abriu as grades do claustro e o velho entrou, acompanhado por dois guardas. Virou-se e fez sinal para que saíssem também. Eles olharam para o chefe, em busca de aprovação, e deixaram o ancião a sós com o marginal.
Olhou para o rapaz amarrado diante de si. Durante vários minutos, as goteiras e a respiração eram os únicos sons que se ouvia. As lembranças dos dias felizes ao lado do filho inundaram sua mente, mas ele conteve as lágrimas, prendendo a respiração. Esfregando a mão na testa, disse:
“O que houve com meu filho?”
Nenhuma resposta.
A cada palavra, o velho elevava o tom de voz:
“O que houve com meu filho!?”
Nada.
O velho percebeu que era inútil gritar.
“Que diabos estás tentando fazer?”
O rapaz jogou a cabeça para trás, mas estava apenas tentando tirar a franja molhada de suor da frente dos olhos. Tornou a baixar o queixo.
“Tu não vais escapar desta vez. Finalmente vais responder por todas tuas fraudes e crimes.”
Silêncio.
“O pobre gigante. Ele era meu amigo. E tu subiste num pé de feijão até a casa dele só para matá-lo?”
O rapaz enfim reergueu o queixo, encarou o velho e desatou a falar:
“Sim! Mas, antes disso, resolvi roubar todo o ouro que o desgraçado possuía!” Ele mal cabia em si. “Depois roubei sua galinha que botava os ovos de ouro. Preciso dizer o que eu fiz com ela?”
“Maldito, a galinha era um presente dos céus para os homens, que poderia pôr fim à fome que há anos assola nosso reino! O que tua mente deturpada fez? Tu a abriste querendo os ovos?”
“Abrir? Mas é claro que não! Desde quando me importo com ouro? Primeiro, eu quebrei-lhe o pescoço, e deleitei-me ao vê-la girar desesperadamente no chão ao redor do próprio eixo. Depois, enfiei-a num buraco e, em seguida, ateei fogo, ha, ha, ha!”
“Ateou fogo? Que espécie de ser humano és tu?”
“Oras, tu bem sabes a resposta para essa pergunta!”
A fúria do velho estava prestes a transbordar. Ele sentia seu coração palpitando, o braço formigando, sabia que um infarto se aproximava, mas, no fundo de seu ser, ele não se importava mais. Viver ou morrer naquela noite era indiferente.
“E a menina dos cachinhos dourados? Também foste tu?”
“Não. Ao menos, não exatamente. Quem matou a intrometida foram os ursos. Eu apenas disse a ela o que encontraria na casa: três pratos de mingau, três cadeiras, três camas e ninguém para importuná-la. Quando a pirralha entrou, eu só alertei os ursos que ela estava lá, ha, ha, ha!”
“E a amiga dela?
“Ah, a do capuz vermelho? Menininha irritante. Não me admira que o pai dela tenha deixado-a sozinha na floresta!”
“O que fizeste com ela?”
“Eu? Eu não fiz nada. Mas nada posso dizer pelo lobo que seguiu minha dica, ha, ha, ha!”
“Miserável, como podes rir de uma situação dessas? Será possível que não tens coração!?”
“Ha, ha, ha", gargalhou o rapaz, histericamente. “Logo TU vens me perguntar isso?”
Mais do que a confissão dos crimes, aquelas palavras fizeram o velho finalmente perder o controle. Cerrou o punho direito e desferiu um golpe no rosto do suspeito, que urrou cuspindo sangue e dentes.
Do corredor, os guardas se prepararam para entrar, mas foram impedidos pelo xerife.
“Isso é entre eles!”, censurou.
O velho desferiu outro golpe, depois mais outro e mais outro, até se tornarem incontáveis como as lágrimas que finalmente se libertaram e desceram furiosamente por seu rosto.
“Tu querias chamar minha atenção?”
“Na verdade, sim, eu quer...”
“Pois conseguiste! Conseguiste! Miserável! Maníaco! Assassino!”, berrou o velho, massacrando o rapaz.
Por mais que o esmurrasse repetidamente, o velho sentia como se estivesse num sonho, e nenhum dos socos saía com a força que refletia seu perturbado estado de espírito. E, pior, nada era capaz de tirar o sorriso cínico do suspeito, que o mantinha mesmo depois de perder os dentes da frente.
Sem se importar com o que fora acordado com o xerife, o velho o agarrou pelas cordas e o empurrou com tudo para o lado, em cima de uma poça. Em seguida, chutou-lhe o estômago e o viu agonizar em busca de oxigênio enquanto a água suja espirrava em sua boca.
“Desgraçado! Por que fazes isso? Por quê? POR QUÊ?!”
Então, a criatura disse as palavras que ecoariam na mente do velho até sua morte:
“PORQUE EU TE ODEIO!”
Tão logo ele as pronunciou, seu sorriso cínico desapareceu e ele desabou a chorar. As lágrimas que escorriam de seus olhos azuis não eram de remorso, pois isso era algo que não sentia desde o dia em que perdera o grilo de sua consciência. Eram lágrimas de derrota, envergonhadas pelo nariz que crescia em seu rosto e já atingia quase um palmo. Dentre tantas confissões horripilantes e verdadeiras, ele contou a única mentira daquela noite, a maior mentira que um filho poderia contar ao pai.
O velho Gepeto deixou o claustro, consternado. Agradeceu ao xerife e pediu que se assegurasse de que o criminoso jamais deixaria aquele local.
Voltou a sua oficina. Foi encontrado morto no dia seguinte.
(FOBIYA, Abu. A confissão. In: Branca dos Mortos e os sete zumbis. Curitiba: Nerdbooks, 2012.)
A Confissão é um conto que integra o livro Branca dos Mortos e os sete zumbis (2012), do escritor Abu Fobiya. Trata-se de uma obra na qual o autor reconstrói os enredos de diversos contos de fada, atribuindolhes uma atmosfera sombria, transformando essas narrativas em histórias de horror e terror. Baseando-se na teoria da Cultura da Convergência, discutida pelo crítico de mídia comparada Henry Jenkins (2009), analise as proposições a seguir:
I. retomando o conceito de “espaços de afinidades”, cunhado por James Paul Gee, Jenkins critica o ambiente escolar quanto à postura de professores de literatura, os quais, sem propostas educacionais bem definidas, privilegiam um trabalho com obras contemporâneas que trazem a mesma proposta de Branca dos Mortos e os sete zumbis em detrimento de se conduzir propostas mais arrojadas com clássicos literários. Isso exerce influência negativa na formação intelectual dos estudantes que, impelidos a não se interessar por leituras mais complexas, deixam de analisar, discutir e até compor releituras desses clássicos, que são obras de maior prestígio literário.
II. os preceitos da “economia afetiva”, discutidos por Jenkins, são interessantes para se pensar no processo de composição literária de obras como Branca dos Mortos e os sete zumbis. Considerando que Abu Fobiya é um pseudônimo usado exclusivamente por Fábio Yabu para publicar suas obras de terror e horror pela Nerdbooks, nota-se que, com a publicação de Branca dos Mortos e os sete zumbis, o autor intenta deixar claro o amor que nutre por seus fãs, atendendo aos pedidos de seus leitores com obras de gêneros variados. Essa é uma exemplificação da clara do conceito de “economia afetiva”: decisões que os produtores de conteúdo tomam para atender aos desejos de seus fãs, demonstrando o amor e carinho que têm por seu público.
III. o fato de que o conto A Confissão arrola diversas histórias em seu enredo – como A pequena vendedora de fósforos, Cachinhos Dourados e os três ursinhos, Chapeuzinho Vermelho, João e o pé de feijão e Pinóquio – não é suficiente para classificá-lo como uma narrativa transmídia.
É correto afirmar que:
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O Decreto nº 5.154, de 23 de julho de 2004, reestabelece a possibilidade de integração entre a educação básica e a educação profissional no Brasil, revogando o dispositivo anterior, o Decreto 2208, de 17 de abril 1997, que determinava a separação entre o ensino médio e a educação profissional. Com base no que dispõe no Decreto nº 5.154, analise as afirmativas a seguir:
I. a educação profissional passa a ser organizada em cursos e programas, que poderiam ser articulados apenas aos níveis básicos da educação nacional.
II. a educação profissional passa a ser compreendida de forma organicamente relacionada à educação básica, permitindo a articulação da qualificação profissional, inclusive formação inicial e continuada de trabalhadores, com a Educação de Jovens e Adultos e da formação técnica com o ensino médio.
III. a organização, por áreas profissionais, em função da estrutura sócio-ocupacional e tecnológica, a centralidade do trabalho como princípio educativo e a indissociabilidade entre teoria e prática são algumas das premissas da educação profissional.
IV. a relação entre ensino médio e educação profissional passa a ser admitida nas formas integrada, concomitante e subsequente, o que permite atender a diversidade das necessidades da população jovem e adulta brasileira, nos diversos sistemas de ensino.
Considerando V para as verdadeiras e F para as falsas, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
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