O sempre surpreendente Guimarães Rosa dizia: "o animal satisfeito dorme". Por trás dessa aparente obviedade
A advertência é preciosa: não esquecer que a satisfação conclui, encerra, termina: a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento. A satisfação acalma, limita, amortece.
Por isso,
Um bom filme não é exatamente aquele que, quando termina, ficamos insatisfeitos, parados, olhando, quietos, para a tela, enquanto passam os letreiros, desejando que não cesse? Um bom livro não é aquele que, quando encerramos a leitura, o deixamos um pouco apoiado no colo, absortos e distantes, pensando que não poderia terminar? Uma boa festa, um bom jogo, um bom passeio, uma boa cerimônia não é aquela que queremos que se prolongue?
Com a vida de cada um e de cada uma também tem de ser assim; afinal de contas, não nascemos prontos e acabados. Ainda bem, pois estar satisfeito consigo mesmo é considerar-se terminado e constrangido ao possível da condição do momento.
Quando crianças (só as crianças?), muitas vezes, diante da tensão provocada por algum desafio que exigia esforço, (estudar, treinar, emagrecer etc.) ficávamos preocupados e irritados, sonhando e pensando: por que a gente já não nasce pronto, sabendo todas as coisas? Bela e ingênua perspectiva. É fundamental não nascermos sabendo e nem prontos: o ser que nasce sabendo não terá novidades, só reiterações. Somos seres de insatisfação e precisamos ter nisso alguma dose de ambição; todavia, ambição é diferente de ganância, dado que o ambicioso quer mais e melhor, enquanto que o ganancioso quer só para si próprio.
Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar. Quanto mais se nasce pronto, mais refém do que já se sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar.
Diante dessa realidade,
lsso não ocorre com gente, e sim com fogão, sapato, geladeira. Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta, e vai se fazendo. Eu, no ano em que estamos, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um -pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida) está no meu passado, e não no presente.
Demora um pouco para entender tudo isso: aliás, como falou o mesmo Guimarães, "não convém fazer escândalo de começo; só aos poucos é que o escuro é claro" ...
Analise as afirmativas abaixo.
I- No trecho" [ ... ] está um dos mais fundos alertas contra o risco de cairmos na monotonia[ ... ]." - o termo grifado deve ser substituído por alerta, a fim de se manter a correção gramatical.
II- Em "[ ... ] é absurdo acreditar na ideia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica [ ... ]" - o sentido e a correção gramatical foram devidamente observados na reescrita "A crença na ideia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica é absurdo."
III- Na passagem "[ ... ] quando alguém diz 'fiquei muito satisfeito com você' ou 'estou muito satisfeita com teu trabalho', é assustador." - o termo destacado serve para indicar que o enunciador é feminino.
Assinale a opção correta.