TEXTO PARA A QUESTÃO
Segura que o filho é nosso
Posso me desdobrar em vinte, mas isso vai
fazer meu filho acreditar que eu sou uma
heroína, e eu não quero dar para ele o exemplo
de que mãe é mártir
Giovana Madalosso | Escritora, roteirista e
uma das idealizadoras do movimento Um
Grande Dia para as Escritoras | 26.mai.2024
Sou mãe e, como a maioria das outras,
consigo me desdobrar em muitas, mas será
que devo fazer isso?
Posso me dividir um duas, mas nunca
vou conseguir cobrir a figura do pai. E nem
quero porque a presença paterna é importante
para uma criança.
Posso me desdobrar em quatro, mas
nunca vou conseguir fazer o papel dos avós,
com sua experiência e seu afeto açucarado
pelos anos e hérnias.
Posso me desdobrar em dez, mas
nunca vou conseguir substituir a madrinha, o
padrinho, a vizinha, o motorista da perua, o
amigo de família, o primo que faz aviãozinho e
tantos outros, porque cada pessoa é uma, e
cada uma delas mostra para o meu filho que o
mundo é feito de pessoas diferentes, com
ideias diversas.
Posso mostrar para o meu filho
planetas, estrelas e constelações, ensinar
matemática com 200 g de farinha e 100 ml de
óleo, recortar na massa fresca um triângulo
isósceles e um escaleno, mas isso nunca vai
substituir um professor e uma escola.
Posso me desdobrar em vinte, quem
sabe até em quarenta, simultaneamente
assobiar, fritar ovo e trocar fralda; segurar dois
no colo, um na perna, outro na cacunda; ser a
plateia cheia que ovaciona o teatrinho; fazer de
mim um polvo, uma malabarista, uma
comunidade em forma de mulher, mas isso vai
fazer meu filho acreditar que eu sou uma
heroína, e eu não quero dar para ele o exemplo
de que mãe é mártir. De que mulher é mártir.
De que qualquer pessoa deve ser mártir.
Quem sabe, com todo esse amor que
me escapa até pelas orelhas, eu possa me
desdobrar até em algo de força sobre-humana
e sair por aí pintando praça, improvisando
creche, mas fui eu mesma que ensinei para o
meu filho que podemos até ajudar no dever do
outro, mas nunca fazer o dever do outro. E
todas essas tarefas gigantes são dever do
Estado.
É, eu poderia ser muitas, mas só quero
ser uma. Nem duas, nem uma vírgula três. E
às vezes até menos do que uma. Quase uma.
Lascada, quebrada, imperfeita, ferrada. Ou
egoísta, como tantos homens, vangloriados
por abraçarem a carreira e ganharem o mundo,
por trabalharem em outras cidades, por
cruzarem oceanos, sem nunca serem
questionados como nós: quem ficou cuidando
dos seus filhos?
Olhe para mim: não tenho mais braços
do que ninguém. E, ao contrário do que alguns
pensam, não tenho "espírito de cuidadora". Se
desenvolvi foi por força das circunstâncias.
Pegando aquela frase da Simone de
Beauvoir e indo um passo para lá: ninguém
nasce mãe, torna-se mãe. Se tudo é uma
construção, inclusive a maternidade, podemos
reconstruí-la de outra maneira. Cruzar os
braços e deixar que o outro faça. Dizer: segura
você, que o filho é nosso. E quanto mais nosso,
melhor para ele.
MADALOSSO, Giovana. Segura que o filho é nosso.
Folha de São Paulo, 26 de maio de 2024. Disponível
em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/giovana-maladosso/2024/05/segura-que-o-filho-e-nosso.shtml.
Acesso em: 26 mai. 2024. Adaptado.
“Posso me desdobrar em dez[,] mas nunca vou conseguir substituir a madrinha, o padrinho, a vizinha, o motorista da perua, o amigo de família, o primo que faz aviãozinho e tantos outros[,] porque cada pessoa é uma, e cada uma delas mostra para o meu filho que o mundo é feito de pessoas diferentes, com ideias diversas.” (4º parágrafo)
Qual é a função dessas vírgulas?