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3761228 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: DIRENS Aeronáutica
Orgão: AFA

TEXTO IV

O trecho a seguir é um fragmento extraído do artigo “O Alienista: loucura, poder e ciência.”

O corpo da disciplina

A loucura do Alienista não é uma tragédia somente

pessoal. Ele assumiu em seu corpo, coerentemente, todos

os projetos científicos da época - e isso o levou ao

desastre. Mas uma coisa é certa: eram projetos científicos.

5 Enlouquecidos, talvez, mas colados ao discurso

positivista.

Tratava-se de “estudar profundamente a loucura, os

seus diversos graus, classificar-lhes os casos, descobrir,

enfim, a causa do fenômeno e o remédio universal”

10 (p. 256). Projeto partilhado por inúmeros colegas de

Bacamarte, tanto de ontem quanto de hoje. Projeto

elevado, acima de interesses pessoais ou busca de

honrarias: “trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma

experiência científica” (p. 260). Experiência assumida com

15 todos os cuidados e escrúpulos exigidos pela ciência:

Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar

desde já a minha idéia (sic); nem a ciência é outra

coisa, Sr. Soares - (diz ele ao boticário Crispim) - senão

20 uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma

experiência, mas uma experiência que vai mudar a

face da terra. A loucura, objeto de meus estudos, era

até agora uma ilha perdida no oceano da razão;

começo a suspeitar que é um continente (p. 260)

25

A ciência, adverte o texto, não está livre de pretensões

enlouquecidas, que não são exclusivas de Simão

Bacamarte, aliás. Não se trata apenas de investigar (um

investigar sem pretensão e metafísico), mas de

30 conquistar. A ilha perseguida se revela um continente - o

universo acanhado de Itaguaí se amplia, universaliza-se

ao toque mágico da abstração científica. E, metáfora

geográfica, diante deste continente, o Alienista se coloca

como um cavaleiro andante.

35 Mesmo que se queira evitar, em vários momentos nos

invade a mente a imagem do Quixote. E nem lhe falta um

Sancho Pança na figura servil, medrosa e chã de Crispim

Soares, que seria a imagem vivaz do vulgo. Em seus

combates, Bacamarte cruza lanças não contra moinhos de

40 vento ou cavaleiros andantes, mas contra teorias e idéias

(sic) vulgares - as quais, submetidas a seu espírito

privilegiado, acabam se revelando igualmente

fantasmagóricas. Desastrado e delirante como Quixote, sua

empreitada também terminará em morte. Mal erguia seu

45 próprio mito, a ciência já encontrava um quixote-alienista

para lhe apontar seu fim (enquanto meta e enquanto morte)

- mas, no caso, os quixotes eram multidão triunfante, não só

na ciência, mas também na política e nas artes. Enquanto o

século delirava, Machado limitava-se a compor seu texto.

50 E, nele, o projeto do Alienista ganha corpo:

Supondo o espírito humano uma vasta concha, o meu

fim, Sr. Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é

a razão; por outros termos, demarquemos

55 definitivamente os limites da razão e da loucura. A

razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades;

fora daí, insânia e só insânia (p. 261).

Pe. Lopes, a quem o Alienista confia a nova teoria, vê nela

60 um absurdo, ou, pelo menos, uma tarefa colossal. Mas nada

pode resistir ao triunfo da ciência. Para o esperto e assustado

padre, a tarefa do Alienista tem dupla face: é absurda, pois

assim a vê do ângulo da teologia cristã, certamente alarmado

com o pecado que é a pretensão de se desvendar a última

65 razão dos mistérios da mente humana: soberba e sacrilégio,

desejo satânico de ser Deus [...].

(Adaptado de: GOMES, Roberto. O Alienista: loucura, poder e ciência. Tempo social. Rev, Sociol. USP. São Paulo Paulo,v. 5 (1-2): 156-157, 1993)

Considerando que o vocábulo se pode aparecer em uma estrutura frasal e assume diferentes classificações, assinale a alternativa correta.

 

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