TEXTO 02
Cruzamento
Vou para o dentista, duas da tarde, meu carro corta com esforço
a geleia modorrenta1 em que o ar se transformou esses dias.
Um casal de adolescentes começa a atravessar a rua, de mãos
dadas, à minha frente. Eles dão uma olhada para o meu carro,
de leve, calculando. A garota faz menção de apressar o passo,
o garoto a dissuade com um olhar de esguelha e, talvez, um
discretíssimo aperto na mão. Eles seguem seu ritmo, lento, rumo
a outra calçada.
Se nenhum de nós mudarmos nossas velocidades, acabarei por
atropelá-los. É evidente que eles sabem disso, como é evidente
que isso não acontecerá, pois eu venho devagar e basta pisar
de leve no freio e pronto, saímos todos, são e salvos, eu para
o dentista, e eles para a casa dos pais de um deles, onde se
deitarão numa cama de solteiro, embaixo de uma parede cheia de
fotos e pôsteres e frases de canetinha hidrocor tipo Ju-eu-te-amoamiga!
e descobrirão que a vida é boa.
Esse pequeno acontecimento me atinge em algum calo das
minhas neuroses urbanas. Irrito-me porque fingiram que a
velocidade deles estava certa. No entanto, sabem que, se não
morreram atropelados, é porque eu diminuí o ritmo. Mais ainda,
talvez, porque o garoto passou para a menina a ideia, naquele
olhar fugaz, de que com ele ela estava segura, de que era só
confiar e tudo daria certo, eles chegariam ao outro lado da rua,
depois ao outro lado do mundo, se quisessem, e seriam felizes
para sempre. Mas foi o tiozão aqui quem tornou a travessia
possível.
Percebo então que quem atravessou a rua à minha frente não foi
um casal de adolescentes, foi a adolescência em si. E quem freou
o carro não fui eu, mas a idade adulta. É assim que a adolescência
lida com o mundo. Não capitula2: arrisca, peita. “Imagina, se eu
mudo meu ritmo, o mundo é que se acostume a ele!”. E porque
os adolescentes têm um anjo protetor dos mais poderosos, ou,
pelo menos, uma sorte do tamanho de um bonde, acontece de
chegarem, quase sempre, sãos e salvos do outro lado da rua.
Já a idade adulta pondera, põe o pé no freio quando convém,
faz concessões ao mundo, dirige afinado com a sinfonia dos
outros, dentro dessa outra geleia modorrenta cujo nome, hoje,
soa tão adolescente: sistema. E por isso me irrito, porque ali,
naquela rua, diminuindo meu ritmo, me percebo velho, adequado,
apascentado3. Eles vão no ritmo deles, a realidade que se vire.
É assim, distraídos, que mudam o mundo.
PRATA, Antonio. Estadão, 23/12/2008. Disponível em: http://blogdoantonioprata. blogspot.com/2007/10/cruzamento.html. Acesso em: 20 out 2024. Adaptado.
TEXTO 03:
E vamos à luta
Eu acredito é na rapaziada, Que segue em frente e segura o rojão Eu ponho fé é na fé da moçada, Que não foge da fera e enfrenta o leão Eu vou à luta com essa juventude, Que não corre da raia a troco de nada Eu vou no bloco dessa mocidade, Que não tá na saudade e constrói A manhã desejada
Aquele que sabe que é negro o couro da gente E segura a batida da vida o ano inteiro Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro E apesar dos pesares, ainda se orgulha de ser brasileiro Aquele que sai da batalha, entra no botequim Pede uma cerva gelada e agita na mesa uma batucada Aquele que manda o pagode e sacode a poeira suada da luta
E faz a brincadeira, pois o resto é besteira E nós estamos pelaí...
GONZAGUINHA. E vamos à luta. São Paulo: EMI Records, 1980. LP, 39 min.
Os jovens da crônica “Cruzamento” (Texto 2) e os jovens retratados na canção “E vamos à luta” (Texto 3), diante da necessidade de buscar soluções no contexto em que vivem, apresentam uma reação: