Texto III
SOMBRA NO AR
Um resto azul de sono ainda me ilude.
Mais visível se torna o meu fantasma
Turvo, entre a névoa da metamorfose.
Respiro o ar leve que sustenta o mundo.
A vida, nada mais que esse respiro.
Meu olhar, nada mais que essa procura.
Este o mundo a que vim, de pedra e sonho.
Penso: Por que me cerca este cenário?
Quem sou eu para ser digno da vida?
Que farei neste mundo, que direi?
Prefiro à minha voz o som das águas,
E a um pensamento, por maior, prefiro
Que por minha cabeça passe o vento.
Arde a nuvem na luz que além se acende.
Ao longe, o fundo da existência. Sempre
O céu presente, do alto presidindo.
(MILANO, Dante. Poesias. Rio de Janeiro: editora Sabiá, 1971, p. 107)
Na 4ª estrofe, há um último questionamento no 10º verso: “Que farei neste mundo, que direi?”. Como resposta, seguem as duas últimas estrofes, das quais se conclui que o eu lírico opta por: