Leia o texto a seguir para responder às questões 1 a 3.
Escrever para jornal e escrever livro
Hemingway e Camus foram bons jornalistas, sem prejuízo de sua literatura. Guardadíssimas as devidas e significativas proporções, era isto o que eu ambicionaria para mim também, se tivesse fôlego.
Mas tenho medo: escrever muito e sempre pode corromper a palavra. Seria para ela mais protetor vender ou fabricar sapatos: a palavra ficaria intata. Pena que não sei fazer sapatos.
Outro problema: num jornal nunca se pode esquecer o leitor, ao passo que no livro fala-se com maior liberdade, sem compromisso imediato com ninguém. Ou mesmo sem compromisso nenhum.
Um jornalista de Belo Horizonte disse-me que fizera uma constatação curiosa: certas pessoas achavam meus livros difíceis e, no entanto, achavam perfeitamente fácil entender-me no jornal, mesmo quando publico textos mais complicados. Há um texto meu sobre o estado de graça que, pelo próprio assunto, não seria tão comunicável e, no entanto, soube, para meu espanto, que foi parar até dentro de missal. Que coisa!
Respondi ao jornalista que a compreensão do leitor depende muito de sua atitude na abordagem do texto, de sua predisposição, de sua isenção de ideias preconcebidas. E o leitor de jornal, habituado a ler sem dificuldade o jornal, está predisposto a entender tudo. E isto simplesmente porque "jornal é para ser entendido". Não há dúvida, porém, de que eu valorizo muito mais o que escrevo em livros do que o que escrevo para jornais - isso sem, no entanto, deixar de escrever com gosto para o leitor de jornal e sem deixar de amá-lo.
Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 421
Leia o trecho abaixo, retirado do texto. "Há um texto meu sobre o estado de graça que, pelo próprio assunto, não seria tão comunicável e, no entanto, soube, para meu espanto, que foi parar até dentro de missal."
O termo destacado, "no entanto", poderia ser substituído no fragmento anterior, sem prejuízo de sentido, por