Perdemos nossas casas em Alcântara para ricaços brincarem de astronautas
Em noites escuras, quem se embrenha mato adentro no Quilombo de Canelatiua sente-se como se estivesse caminhando no espaço. Os vaga-lumes ao redor e as estrelas no céu causam a sensação. Nossos ancestrais chegaram aqui da África; não vieram de foguete, mas em navios negreiros.
Apesar disso, fizeram da região de Alcântara (MA) sua terra. Ainda assim, somos tratados como ETs: só soubemos pelos jornais que a base de lançamentos instalada em nosso lar pode servir de espaçoporto para turismo espacial. Imagine perder sua casa para ricaços brincarem de astronauta?
A Virgin Orbit, empresa que pertence ao conglomerado do bilionário inglês Richard Branson,(b) e (c) conseguiu em junho licença para operar no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Seu avião de fuselagem dupla, do qual são lançadas as naves, vai decolar de sua pista.
É o mesmo usado por outro braço da empresa, a Vlrgln Galactic,(d) que cobra US$ 450 mil (cerca de R$ 2,4 milhões)(e) para quem quer bancar o Luke Skywalker. Tememos por nosso futuro próximo pela forma corno temos sido tratados desde um passado não tão distante assim.
O Território Étnico de Alcântara, no Maranhão,(a) começa a se formar no final do século 19, com o abandono das terras por seus proprietários. Ele foi certificado como remanescente de quilombo em 2004, pela Fundação Cultural Palmares. Legalmente, porém, sua existência é reconhecida desde 1856, quando obteve um registro na freguesia de São João de Cortes.
Consta, ainda, uma doação feita por Theofilo José de Barros, registrada no cartório de 1°. Ofício de Alcântara, em 1915. O CLA foi criado nos anos 1980; naquela época, mais de 300 famílias de 24 comunidades do litoral foram removidas para o interior.
O impacto social foi enorme, já que a pesca é o nosso principal meio de subsistência. Não é possível, contudo, mensurá-lo com exatidão, assim como os danos causados à natureza, já que a base funciona sem nenhum estudo ou licença ambiental.
o CLA é um porto pirata. Não há informações públicas oficiais sobre que tipos de combustível são usados ou componentes químicos lançados no meio ambiente. Da mesma forma, o Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (Mabe) só pode fazer estimativas de quantos de nós ainda perderão seus lares. Acontecimentos recentes indicam que cerca de 800 famílias e 30 quilombos estão ameaçados.
No fim de 2019, o CLA foi cedido aos norte-americanos. O contrato prevê a possibilidade da ampliação de suas instalações sobre o território quilombola. Em 27 de março de 2020, o governo quis remover 792 famílias de 27 comunidades, durante o pico da pandemia.
A medida só foi definitivamente revogada em dezembro passado, quando uma denúncia enviada à Comissão lnteramericana de Direitos Humanos da OEA em 2001, referente aos despejos dos anos 1980, foi alçada a uma instância superior, a Corte lnteramericana de Direitos Humanos.
Em 2011, o WikiLeaks revelou que os EUA não admitiam que desenvolvêssemos tecnologia para fabricar foguetes. Não somos só nós que temos a perder; a própria soberania nacional pode ir para o espaço.
(Danilo Serejo, Quilombola de Alcântara (MA) e membro do Movimento dos Atingidos pele Base Espacial
de Alcântera (Mabe). Folhe de S, Paulo, https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2022/07/
perdemos-nossas-casas-em-alcantara-para-ricacos-brincarem-de-astroneutas.shtml)
Assinale a alternativa em que o termo indicado exerça, no texto, função sintática distinta da das demais.