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3427248 Ano: 2023
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: CORE-PA
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Festa de aniversário

Leonora chegou-se para mim, a carinha mais limpa deste mundo:

– Engoli uma tampa de Coca-Cola.

Levantei as mãos para o céu: mais esta, agora! Era uma festa de aniversário, o aniversário dela própria, que completava seis anos de idade. Convoquei imediatamente a família:

– Disse que engoliu uma tampa de Coca-Cola.

A mãe, os tios, os avós, todos a cercavam, nervosos e inquietos.

– Abra a boca, minha filha. Agora não adianta: já engoliu. Deve ter arranhado. Mas engoliu como? Quem é que engole uma tampa de cerveja? De cerveja não: de Coca-Cola. Pode ter ficado na garganta – urgia que déssemos uma providência, não ficássemos ali, feito idiotas. Tomei-a ao colo: – Vem cá, minha filhinha, conta só para mim. Você engoliu coisa nenhuma, não é isso mesmo?

– Engoli sim, papai – ela afirmava com decisão.

Consultei o tio, baixinho:

– O que é que você acha?

Ele foi buscar uma tampa de garrafa, separou a cortiça do metal:

– O que você engoliu: isto... ou isto?

– Cuidado que ela engole outra – adverti.

– Isto – e ela apontou com firmeza a parte de metal.

Não tinha dúvida: pronto-socorro. Dispus-me a carregá-la, mas alguém sugeriu que era melhor que ela fosse andando: auxiliava a digestão.

No hospital, o médico limitou-se a apalpar-lhe a barriguinha, cético:

– Dói aqui, minha filha?

Quando falamos em radiografia, revelou-nos que o aparelho estava com defeito: só no pronto-socorro da cidade.

Batemos para o pronto-socorro da cidade. Outro médico nos atendeu com solicitude.

– Vamos já ver isto.

Tirada a chapa, ficamos aguardando ansiosos a revelação. Em pouco o médico regressava:

– Engoliu foi a garrafa.

– A garrafa?! – exclamei. Mas era uma gracinha dele, cujo espírito passava ao largo da minha aflição: eu não estava para graças. Uma tampa de garrafa! Certamente precisaria operar – não haveria de sair por si mesma.

O médico pôs-se a rir de mim:

– Não engoliu coisa nenhuma. O senhor pode ir descansado.

– Engoli – afirmou a menininha.

Voltei-me para ela:

– Como é que você ainda insiste, minha filha?

– Que eu engoli, engoli.

– Pensa que engoliu – emendei.

– Isso acontece – sorriu o médico – até com gente grande. Aqui já teve um guarda que pensou ter engolido o apito.

– Pois eu engoli mesmo – comentou ela, intransigente.

– Você não pode ter engolido – arrematei, já impaciente. – Quer saber mais que o médico?

– Quero. Eu engoli, e depois desengoli – esclareceu ela.

Nada mais havendo a fazer, engoli em seco, despedi-me do médico e bati em retirada com toda a comitiva.

(SABINO, Fernando. A mulher do vizinho. Rio de Janeiro, RJ. 1962. Adaptado.)

A relação de sinonímia entre vocábulos distintos diz respeito a determinados aspectos semânticos contextuais. Considerando-se a preservação do sentido original do texto, o vocábulo destacado seria substituído adequadamente pela respectiva sugestão:

 

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