Catar feijão
1 Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
4 e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
7 pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
10 Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
13 um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
16 obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.
João Cabral de Melo Neto. A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
Considerando as propriedades linguísticas e os sentidos do poema precedente, julgue os próximos itens.
A conjunção “Ora” (v.10) indica que entre a primeira e a segunda estrofes é estabelecida uma relação de causa e consequência.