Texto para responder às questões de 5 a 8.
1____Agora que se aproximam grandes chuvas,
inundações, temporais, furacões e deslizamentos de
encostas, temos de reaprender a escutar a natureza. Toda a
4 nossa cultura ocidental, de vertente grega, está assentada
sobre o ver. Não é sem razão que a categoria central — ideia
— (eidos, em grego) significa visão. A tele-visão é sua
7 expressão maior. Temos desenvolvido até os últimos limites
a nossa visão. Penetramos com os telescópios de grande
potência até a profundidade do universo para ver as galáxias
10 mais distantes. Descemos às derradeiras partículas
elementares e ao mistério íntimo da vida. O olhar é tudo para
nós. Mas devemos tomar consciência de que esse é o modo
13 de ser do homem ocidental, e não de todos.
Outras culturas, como as próximas a nós, as
andinas (dos quéchuas e aimaras e outras) estruturam-se ao
16 redor do escutar. Logicamente eles também veem. Mas sua
singularidade é escutar as mensagens daquilo que veem. O
camponês do altiplano da Bolívia diz: “Eu escuto a natureza,
19 eu sei o que a montanha me diz”. Falando com um xamã, ele
testemunha: “Eu escuto a Pachamama e sei o que ela está
me comunicando”. Tudo fala: as estrelas, o sol, a lua, as
22 montanhas soberbas, os lagos serenos, os vales profundos,
as nuvens fugidias, as florestas, os pássaros e os animais.
As pessoas aprendem a escutar atentamente essas vozes.
25 Livros não são importantes para eles porque são mudos, ao
passo que a natureza está cheia de vozes. E eles se
especializaram de tal forma nessa escuta que sabem, ao ver
28 as nuvens, ao escutar os ventos, ao observar as lhamas ou
os movimentos das formigas, o que vai ocorrer na natureza.
Para a cultura andina, tudo se estrutura dentro de
31 uma teia de relações vivas, carregadas de sentido e de
mensagens. Percebem o fio que tudo penetra, unifica e dá
significação. Nós, ocidentais, vemos as árvores, mas não
34 percebemos a floresta. As coisas estão isoladas umas das
outras. São mudas. A fala é só nossa. Captamos as coisas
fora do conjunto das relações. Por isso nossa linguagem é
37 formal e fria. Nela temos elaborado nossas filosofias,
teologias, doutrinas, ciências e nossos dogmas. Mas esse é
o nosso jeito de sentir o mundo. E não é de todos os povos.
40___Os andinos ajudam-nos a relativizar nosso pretenso
“universalismo”. Podemos expressar as mensagens por
outras formas relacionais e includentes, e não por aquelas
43 objetivísticas e mudas a que estamos acostumados. Eles nos
desafiam a escutar as mensagens que nos vêm de todos os
lados.
46___Nos dias atuais, devemos escutar o que as nuvens
negras, as florestas das encostas, os rios que rompem
barreiras, as encostas abruptas, as rochas soltas nos
49 advertem. As ciências da natureza ajudam-nos nessa escuta.
Mas não é o nosso hábito cultural captar as advertências
daquilo que vemos. E então nossa surdez nos faz vítimas de
52 desastres lastimáveis. Só dominamos a natureza,
obedecendo a ela, quer dizer, escutando o que ela nos quer
ensinar. A surdez nos dará amargas lições.
Leonardo Boff. Paradigma: escutar a natureza. Internet:
<http://oglobo.globo.com> (com adaptações).
Acesso em 9/1/2012.
Assinale a alternativa em que há linguagem conotativa.