Consciência de herança
Quando terminava o ano letivo, Fabrício tinha a missão de reunir os livros usados em aula e apagar o que tinha escrito para poder oferecê-los ao irmão caçula. Era uma obrigação limpar as respostas. Por vários dias e duas borrachas brancas, fazia desaparecer aquilo que aprendera durante uma série inteira.
Da lista escolar, os pais apenas compravam os cadernos. Estudavam todos na mesma escola e reutilizavam os livros de exercícios. História, Geografia, Matemática, Língua Portuguesa e Ciências... as obras migravam de um nome para outro sem trocar o sobrenome. O irmão Rodrigo era como um adubo do conhecimento de Fabrício, pois nunca deixava nenhum exercício sem preencher.
Predominava na época uma grave consciência de herança que Fabrício deveria seguir. Jamais ele recebia um livro inédito. Quando usava o livro, tomava cuidado para não afundar demais o lápis, já pensando no irmão Miguel, que herdaria o livro no ano seguinte. Por isso escrevia leve, acariciando a folha. Não podia rasgar, prejudicar a capa, desenhar nas bordas, colar adesivos. A responsabilidade já aparecia na ponta dos dedos de Fabrício.
Havia a noção de que o livro era coletivo, não pessoal. Representava um patrimônio de todos os filhos. Estudar significava cuidar. Assim Fabrício foi educado a não ser egoísta e possessivo, a não se sentir dono da verdade, aprendendo a ceder espaço para quem vinha depois dele. Livro importante era, para todos os irmãos, livro passado adiante.
(Fabrício Carpinejar. Cuide dos pais antes que seja tarde. 5a ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2018. Adaptado)
Assinale a alternativa em que há palavra empregada com sentido figurado.