TEXTO IV
Idioma e identidade nacional
Na era contemporânea adotamos do francês milhares – sim, milhares – de termos consagrados do dia-a- dia, como paletó, boné, telefone. Do chinês, nanquim, chá, tufão. Do malaio, bule, junco, orangotango. Do persa, azul, berinjela, caravana, divã, chalé, gaze, laranja, paraíso, quiosque, taça. Do espanhol, entre muitas, aficionado, avançar, amolar. Do italiano usamos afresco, agüentar, baronesa, boletim, canalha, empresa, gazeta, soneto. Do japonês, a quem demos também nossa contribuição, registrada aqui pelo nosso ministro Rafael Greca, herdamos biombo, gueixa, leque, samurai, quimono e tatame – muitos vocábulos da culinária. Do inglês, principalmente via Estados Unidos, têm vindo contribuições que nos enriquecem o vocabulário e empobrecem o patrimônio: debênture, dumping, cheque, truste, warrant (temos até o verbo warrantar...), royalty (esta compreensivamente mais usada no plural, royalties) etc.
O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa recém-incorporou a palavra manager, aqui traduzida como empresário, administrador, gerente. No caso particular desta expressão, é bom lembrar que os colonizadores sempre introduzem no vernáculo palavras definidoras da hierarquia. Os tupis, que falavam tuxaua e morubixaba, aprenderam, com os portugueses, a dizer senhor, dom, capitão-mor, registrando a nova hierarquia que se impunha. Quem sabe a substituição da palavra gerente ou administrador também seja um sinal dos tempos, da nova hierarquia que a globalização estabelece?
A língua também se renova em virtude de alterações na estrutura econômica e organização social, assim como por influência das novas gerações. Já não usamos desquecido por aborrecido, delirar por afastar-se, desviver por morrer, nem dizemos chofer (e muito menos o alternativo cinesíforo), mas motorista; usamos segurança e não guarda-costa ou capanga ou jagunço; táxi em vez de carro de praça; avião em lugar de aeroplano; pose e não mais chapa; filme, não fita. Mais um pouco e estas e outras expressões ou palavras como televisor, aparelho de som (que as lojas chamam de system), serão vetustos arcaicos. Garagem perdeu o sentido de oficina mecânica para ser, exclusivamente, o lugar onde se guardam carros e, pelo andar da carruagem, será substituída por vaga. "As palavras aposentam-se", disse Machado de Assis. A língua é, portanto, viva e mudável. Os grandes escritores que lustraram o português acolheram e difundiram novidades. Graciliano Ramos, um mestre do vernáculo, usa, no romance Angústia, as palavras bureau, smoking, limousine, todas sublinhadas para demonstrar o estrangeirismo. Mesmo Castro Alves, na minha modesta opinião o maior poeta do Brasil, rei das epígrafes em francês e latim, utiliza, em Espumas Flutuantes, embora excepcionalmente, hatchiz — talvez uma forma de haxixe importada do francês haschisch.
Mas é hora de retomar antigas cruzadas e pelejar num movimento nacional para exaltação e defesa da língua portuguesa.
(REBELO, Aldo. www2.camara.gov.br - fragmento)
A palavra recém-incorporou representa um uso variável no português brasileiro porque: