DIRETORIA DE CONCURSOS E SELEÇÕES - DCS
Chamo-me Simplício e tenho condições naturais ainda mais tristes do que o meu nome.
Nasci sob a influência de uma estrela maligna, nasci marcado com o selo do infortúnio.
Sou míope; pior do que isso, duplamente míope, física e moralmente.
Miopia física: — a duas polegadas de distância dos olhos não distingo um girassol de uma violeta.
E por isso ando na cidade e não vejo as casas.
Miopia moral: — sou sempre escravo das ideias dos outros, porque nunca pude ajustar duas ideias minhas.
[...]
Aos doze anos de idade, achei-me no mundo órfão de pai e de mãe.
Eu estava acostumado a ver pelos olhos de minha mãe, a pensar pela inteligência de meu pai; fiquei, pois, nas trevas dos olhos e da razão.
Meus pais eram ricos e deviam deixar-me, deixaram-me por certo, avultada fortuna; quanto, não sei: meu irmão mais velho, que tomou conta dos meus bens, minha tia Domingas, que tomou conta da minha pessoa, e minha prima Anica, que se criou comigo e que é um talento raro, pois até aprendeu latim, hão de saber disso melhor do que eu.
Dizem eles que a minha fortuna vai a vapor, ignoro se para trás se para diante, porque os barcos e carros a vapor avançam e recuam à custa do gás impulsor, mas o meu amigo negociante declarou-me que, por certas razões que não compreendo, nas quais, também não sei por que, entra a pessoa da prima Anica, devo confiar muito no zelo da tia Domingas.
E eu confio nela o mais possível, porque é uma senhora que anda sempre de rosário e em orações e que, tendo alguma coisa de seu, apesar de tão religiosa, não deu nem dá um vintém de esmola ao pobre que lhe bate à porta, pretextando sempre que tem muita vontade de fazer esmolas evangélicas, porém ainda não achou meio de esconder da mão esquerda o óbolo da caridade pago pela mão direita.
Estou tão profundamente convencido da pureza dos sentimentos religiosos da tia Domingas, que, desde que ela tomou conta de mim, vivo em sustos de que algum dia a piedosa senhora mande amputar a mão esquerda para conseguir dar esmolas com a mão direita, conforme o preceito evangélico de que, em sua santa severidade, não quer prescindir.
Aos dezoito anos de idade comecei a compreender todas as proporções da minha desgraça dupla: chorei, lastimei-me, pedi médicos para os meus olhos e mestres para minha inteligência.
A força de muito rogar e bradar, consegui que me dessem uns e outros.
Os mestres ganharam o seu dinheiro e eu quase perdi todo o meu tempo com eles, porque bem pouco lucrei no empenho de combater a minha miopia moral.
O mais hábil dos meus professores declarou-me, no fim de quatro anos, que um mancebo tão rico de cabedais, como eu era, podia bem reputar-se literato de avantajado merecimento, sabendo ler, escrever e as quatro espécies da aritmética.
Convencido sempre de que só me diziam a verdade e tendo conseguido saber, aos vinte e dois anos de idade, ler mal, escrever pior e fazer, com a maior dificuldade, as quatro espécies da aritmética, mandei embora o hábil professor e fiquei literato.
Os médicos [...] acabaram por dizer-me que, aos sessenta ou setenta anos de idade, eu havia de ver muito melhor.
Dos médicos alopatas recebi esta consolação de melhor visão aos setenta anos, se estivesse vivo; [...] mas o fato é que, em resultado de dez conferências e de vinte tratamentos diversos, não vi uma linha adiante do que via, e apenas posso gabar-me de não ter ficado cego com a luz de tanta ciência.
O meu desgosto foi aumentando com os anos.
Meu irmão, que é um santo homem, me dizia:
— Consola-te, mano; tudo tem compensação: a tua miopia é uma desgraça, mas, porque és míope, não vês como são bonitos os bordados da farda de um ministro de estado, portanto não te exasperas por não poder ostentá-los.
Convém saber que meu irmão saiu eleito deputado na última designação constitucional e mandou fazer a sua libré parlamentar ainda antes de ser reconhecido representante legítimo do povo soberano que anda de paletó e de jaqueta.
Desse fato e da sua observação concluí eu, em minha simplicidade, que o mano Américo vive doido por ser ministro para fazer o bem da pátria.
E não é só ele; a prima Anica já sonhou, três vezes, com mudança de gabinete e com correios e ordenanças à porta de nossa casa.
Inocente menina! É um anjo: os seus sonhos são piedosos como as vigílias da tia Domingas, sua mãe, e patrióticos, como os cálculos do mano deputado; ela diz, com virginal franqueza, que tem meia dúzia de parentes pobres a arranjar, quando o mano Américo for ministro.
Meia dúzia só! Que abnegação e que desinteresse da prima Anica!
Ela está se tornando tão profundamente religiosa como a tia Domingas.
Já fez um ponto de fé deste suavíssimo princípio: "a caridade deve começar por casa".
(MACEDO, Joaquim Manoel de. Adaptado de http://www.dominiopublico.gov.br/
download/texto/bn000115.pdf. Acesso em 05/05/14)
A réplica de Américo, constante das, revela: