Eu faço não com a cabeça
O homem se aproxima ao ponto de ônibus. Tem um papel na mão, lista, receita, não sei. Fala coisas que não entendo.
Evito olhar o papel, evito olhar para ele, querendo afastá-lo com meu desinteresse. Quando percebo que quer dinheiro faço que não com a cabeça. E continuo fazendo não até que ele se afasta.
Moça, chama-me o chão. Não é o chão, é uma pessoa acocorada junto da parede. Estou com pressa, respondo sem falar.
Não quero que limpem meu vidro. Não preciso de canetas esferográficas. Não vou comprar loteria hoje, o bilhete caído não é um apelo da sorte, é uma malha a mais que chega até o - vasta rede.
O umbigo ainda pendente, o bebê mole no calor, largado no colo da mãe, ao nível dos meus pés. Se eu comprar uma lata de leite em pó ela não terá água filtrada, não terá mamadeira, não terá nada para usar o leite. Então não compro.
Traço a cidade na reta dos meus passos, na fuga a tantas mãos. Mas é difícil andar neste Pátio dos Milagres, porque me falta uma perna. E é difícil enxergar, porque me falta um olho. No Pátio da Cidade só quero descansar de tudo o que me falta.
[...]
Vou eu ao corredor das ruas.
Boa noite, sorrio para o porteiro da boate que me abre a porta.
Obrigada, sorrio para o chofer do táxi que me leva.
Até amanhã, despeço-me do maître que me serviu o jantar.
Eu tão gentil.
- Moça?... a senhora podia...
-Não posso
-... dizer onde fica a “Praça XV”?
As mulheres, todos sabem, alugam criancinhas para pedir esmolas na rua. Então não dou esmola para as mulheres, que espancarão os meninos porque nada ganharam.
E as criancinhas, todos dizem, são pivetes em potencial. Então não dou esmolas, para que prossigam.
O cego vende lixas de unhas que não compro porque corto com tesouras. E agulhas de costura, que não compro porque não são da marca que me agrada. Ou não vende nada, e não dou dinheiro, porque todo dia passo por ele e se eu der dinheiro todo dia não há dinheiro que chegue.
Alô? Aqui é do Orfanato, será que a senhora poderia...
Alô? Aqui é do Asilo, quem sabe, a senhora poderia...
Não posso. Não estou. Fecha a porta. Não atende. Madame está viajando. Aqui não mora ninguém com esse nome. Não viu o aviso na porta? Cuidado com o cão. Fale com o porteiro. Deixe recado. Passe outro dia.
O homem vem a mim no ponto de ônibus. Desvio o olhar fingindo que não estou com medo. Ele me olha e pede, sabendo que não vou dar. E eu faço não com a cabeça. E eu o odeio por me levar a fazer não. E não. Faço não. Não. Com a cabeça.
(Marina Colosanti, A cosa das palavras. Coleção Para gostar de lei. São Paulo, Atica, 2002.)
Analise as afirmativas referentes ao texto:
I - O texto é uma denúncia contra a exclusão social a que estão submetidos milhões de brasileiros.
II - O texto critica a insensibilidade de pessoas que se fecham em um individualismo egoísta e recusam-se a contribuir para minorar o sofrimento das pessoas míseras.
III - O comportamento da narradora-personagem é meio alucinado, em uma posição defensiva, esquiva-se do problema e revela sua convicção de não ajudar, por ser inacessível às pessoas carentes.
Quais afirmativas estão corretas?