"A inteligência pode ser construída"
Cientista diz que a genética é importante, mas o ambiente é fundamental para o desenvolvimento intelectual de cada um.
Cilene Pereira
Durante muito tempo, prevaleceu entre estudiosos da inteligência a ideia de que a capacidade intelectual tinha uma forte raiz genética - e que, por isso, aqueles que não tinham sido privilegiados pelos genes pouco poderiam fazer para aumentar seu desempenho. No livro "Intelligence and How to Get it" (Inteligência e como alcançá-la), lançado recentemente nos Estados Unidos, o pesquisador americano Richard Nisbett derruba esse conceito. Baseado em vários estudos, o cientista confirma que a inteligência tem um componente genético, mas isso não impede que seja construída e desenvolvida para além dos limites impostos pelos genes. Nisbett acredita que intervenções simples, em casa e na escola, contribuem para que cada criança alcance o máximo do desempenho intelectual. "E um dos primeiros passos para isso é ajudar as pessoas a acreditar que podem se tornar mais inteligentes", diz. Professor da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, ele deu a seguinte entrevista à ISTOÉ.
ISTOÉ - Quais as evidências de que o ambiente é mais importante do que a genética para a inteligência?
Richard Nisbett - Muitos pesquisadores superestimaram o papel da genética porque não levaram em consideração que os genes sempre interagem com o ambiente para ter um efeito. [...]
ISTOÉ - Quais as implicações da descoberta da importância do ambiente para a inteligência na vida das pessoas?
Nisbett - Quando as pessoas perceberem que a inteligência é algo que está substancialmente sob o controle delas, vão trabalhar mais duro para aprender e irão cobrar de maneira mais efetiva uma escola de qualidade melhor para seus filhos. Elas precisam acreditar que a inteligência pode ser construída.
Nisbett - Acho que isso precisa ser visto de outro modo. As populações dos países desenvolvidos têm QI mais elevado porque suas sociedades demandam altos níveis de inteligência. Conforme as sociedades enriquecem, vão se tornando mais inteligentes. E, à medida que vão ficando mais inteligentes, vão se tornando mais ricas.
ISTOÉ - Quais as razões que o levaram a afirmar que os japoneses e os judeus em geral apresentam inteligência superior?
Nisbett - Não acho que os japoneses têm uma inteligência superior. O que digo é que os asiáticos em geral fazem mais com sua capacidade intelectual do que nós, ocidentais. Eles costumam ter notas mais altas em exames, por exemplo, quando concorrem com outros estudantes. A socialização dessas crianças é muito diferente e tem como objetivo levar a um desempenho intelectual mais alto. É um pouco parecido com o que acontece com os judeus. Mas judeus, segundo pesquisas, realmente têm maior inteligência em comparação com quem não é judeu. Não sabemos ainda quais genes são responsáveis por este fato.
ISTOÉ - Como as escolas podem criar um ambiente mais favorável para melhorar o desempenho intelectual dos estudantes?
Nisbett - A primeira coisa é fazer com que os alunos passem mais tempo na escola - dias mais longos, semanas mais longas, anos letivos mais prolongados. Oferecer, claro, qualidade no ensino básico, mas também ter a preocupação de enriquecer o ambiente com atividades como música, arte, visitas a museus. O acesso ao que há de mais recente na informática também é essencial. Há programas de computador que fazem um ótimo trabalho ensinando matemática, leitura e ciências, em ações que podem ser feitas em conjunto com os professores. E é muito importante que todos acreditem que a criança pode aprender e alcançar o máximo de seu desempenho intelectual.
ISTOÉ - O sr. considera que é preciso investir mais dinheiro nas escolas?
Nisbett - Apenas colocar mais dinheiro nas escolas não significa muita coisa. Há outras medidas que podem dar bons resultados. Em geral, as melhorias podem ser feitas sem tanto gasto.
ISTOÉ - Por que o sr. diz que os professores responsáveis pelo atendimento a crianças menores, nos primeiros anos da vida escolar, são os mais importantes?
Nisbett - Na verdade, acho que eles são mais fundamentais ainda para as crianças mais pobres. Elas são menos estimuladas, de modo geral, e um professor ativo pode ajudá-las a superar essa deficiência, nem que seja parcialmente. As mais ricas têm em casa um ambiente que favorece seu desenvolvimento. Mas acredito que um bom professor é importante para todos os níveis de educação.
ISTOÉ - O sr. acha eficientes programas de incentivo para professores, como os que fazem reconhecimento por mérito?
Nisbett - Não tenho uma opinião sobre esse tema. Sei que os professores precisam ter melhor treinamento, o que envolve mais horas de prática de dar aula.
ISTOÉ - Qual a sua opinião sobre as escolas de período integral? Elas têm melhor resultado?
Nisbett - Sim. Não tenho dúvida em relação a isso. [...]
ISTOÉ - De que forma os recursos como a internet influenciam o desenvolvimento da inteligência?
Nisbett - Sabemos que alguns sites têm excelente qualidade de informação e podem ser uma ferramenta muito útil na sala de aula. Mas eles devem ser usados em conjunto com outras atividades.
ISTOÉ - O que os pais podem fazer, em casa, para ajudar seus filhos a se tornar mais inteligentes?
Nisbett - Há coisas que fazemos instintivamente com nossas crianças e nem sabemos que estamos investindo no seu desenvolvimento. Uma delas é conversar com os pequenos e os jovens usando o vocabulário mais rico que tivermos. Inclua-os nas conversas dos adultos quando isso puder ser feito. Leia muito para as crianças. Outra recomendação é economizar em reprimendas e aumentar o encorajamento para que elas explorem o ambiente e façam as suas próprias descobertas. [...]
Texto adaptado de < http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2078/artigo151034-2.htm >. Acesso em 21 nov 2009.
Assinale a alternativa INCORRETA quanto à função sintática desempenhada pelas expressões em destaque.