Celso Cunha tinha, na minha geração literária, a posição que, na geração anterior à nossa, coube a Souza da Silveira. Ou seja: a do mestre que, conhecendo profundamente a língua portuguesa, nas suas minúcias e no seu conjunto, associou a esse saber admirável a sensibilidade de quem nascera para apreciá-la na condição de obra de arte.
Antes do mestre das Lições de Português, tivéramos aqui as sucessivas gerações dos professores que se consideravam exímios na colocação dos pronomes, na guerra sistemática aos galicismos, na sujeição aos modelos clássicos, e, com isto, impunham mais o terror gramatical que o saber verdadeiro.
Houve quem passasse a escrever registo, em vez de registro, e preguntar, em vez de perguntar, porque assim se escrevia em Portugal. Já ao tempo de José de Alencar, um publicista ríspido, José Feliciano de Castilho, viera de Lisboa para o Rio de Janeiro, com a missão de ensinar-nos a escrever como se escrevia em Portugal. Daí a reação do romancista cearense no prefácio de seus Sonhos d’Ouro, em 1872: “Censurem, piquem, ou calem-se, como lhes aprouver. Não alcançarão jamais que eu escreva, neste meu Brasil, coisa que pareça vinda em conserva lá da outra banda, como a fruta que nos mandam em lata.”
Josué Montello. Mestre Celso Cunha. In: Cilene da Cunha Pereira, Paulo Roberto Dias Pereira (Orgs.). Miscelânea de estudos linguísticos, filológicos e literários in memoriam Celso Cunha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995, p. 57-8 (com adaptações).
Com relação a aspectos gramaticais do texto acima, julgue (C ou E) o próximo item.
Em razão do arranjo sintático na expressão “na geração anterior à nossa”, torna-se obrigatório o emprego do sinal indicativo de crase, apesar de esta preceder um pronome possessivo.