Leia o texto abaixo para responder às questões de 01 a 09.
Natureza urbanizada
Uma senhora coloca cedinho, na rua, arroz cozido para os pombos. Um rato sai do esgoto e entra na roda. Come tranquilamente do arroz ao lado dos pombos, cada espécie na sua. A cena é inusitada e, de certo modo, simpática à vista por sua originalidade. O rato não é feio. Está redondo. A certeza do alimento fácil talvez o tenha feito desistir do alvo eventual e arisco. Melhor um arroz no papo do que dois pombos voando. Mas há um anticlima no cenário: pombos e ratos são animais que causam danos à saúde humana. Percebe-se menos esse aspecto da questão quanto aos pombos, símbolos da paz (os brancos). E também porque a ameaça só se materializa em função da quantidade. Mesmo quando um rato de maior tamanho tem um aspecto mais simpático, como o roedor que dividiu a mesa com os pombos, é fora de dúvida sua nocividade. O lixo abundante na cidade acaba sendo uma forma de alimentação, ainda que sujeita à seleção. As pessoas se habituam a alimentar os animais, especialmente as aves. Não se apercebem dos males a que dão origem involuntariamente, a si e aos animais. Pássaros que bebem água adoçada vão ser prejudicados. O fato – evidente e crescente – é a multiplicação dos animais. Alguns deles ainda não estão domesticados e talvez nunca venham a ser, como os gatos. Mas os pássaros estão perdendo o medo. Muitos deles já não voam quando uma pessoa se aproxima, se ela não assume uma atitude hostil ou agressiva. Dentre os pássaros, o mais presente – por seu número e zoada característica – é o periquito. Alguns anos atrás não se podia imaginar que haveria tantos circulando pela cidade. Nem tantas e tão amistosas garças. Sua presença nos igarapés e canais, mas principalmente o seu voar pela cidade até as árvores da Praça Batista Campos, ao amanhecer e entardecer, é um dos mais novos e bonitos espetáculos da cidade. Complexo e maravilhoso mundo animal que se urbaniza. A expressão das cidades pelo espaço em torno (ou entorno, como hoje se prefere) é um movimento que vai ao encontro de outro movimento, o de expulsão dos animais silvestres do seu habitat natural pelos desmatamentos nas áreas mais próximas (e mais distantes). Haverá um dia em que o ao encontro se transformará em de encontro, se quem – de fato e de direito – não se interessar por esse fenômeno.
PINTO, Lucio Flávio. Jornal Pessoal. n.º 556. Mar. 2014. 1ª quinzena.
O conectivo que melhor expressa a relação entre os enunciados “A certeza do alimento fácil talvez o tenha feito desistir do alvo eventual e arisco” e “Melhor um arroz no papo do que dois pombos voando” (linhas 4 e 5) é