É Natal cada vez que você acompanha sua mãe na consulta ao médico, que explica de novo para seu pai como enviar fotos pelo WhatsApp ou que o convida para uma partida de xadrez. Basta uma gentileza, uma atenção, e você promove o ordinário a sagrado.
Já não carrego dinheiro vivo comigo, mas às vezes saco algumas notas, a fim de ajudar quem está passando necessidade na rua. Outro dia, dei 20 reais para um senhor. Ele me disse: “Obrigado, hoje vou conseguir almoçar.”
Todo santo dia, você faz alguma coisa legal. Empresta o livro que mais ama para alguém que talvez não vá devolvê-lo. Fica com a chave da casa da vizinha e entra lá para alimentar o gato, enquanto ela não volta de férias, e carinhosamente o acaricia. Dá uma carona no seu guarda-chuva para alguém que saiu sem conferir a previsão do tempo. Aceita o folheto que o menino entrega no semáforo, para que ele sinta que a tarefa dele tem valor.
O Natal não é um dia santo para todos. Nem todos creem, ou rezam, ou se comovem; para muitos é só peru e pacotes embaixo de uma árvore artificial, forçando sorrisos igualmente artificiais. Mas todo santo dia a gente pode tentar acertar no presente.
Até mesmo sozinho em casa, isolado. Poderá ser o dia especial em que você decidirá perdoar a indiferença de alguém que nunca se importou com seu sentimento, o dia em que você desistirá de culpar um parente por uma limitação que, afinal, é só sua. O dia em que você abrirá um vinho e se despedirá serenamente de um amor que se foi, sem mais tentar retê-lo. O dia em que você apagará a postagem ofensiva que fez contra uma pessoa que apenas discordou de você. Longe de mim causar pânico, mas nós mesmos podemos provocar uns 10 Natais por dia, todo santo dia. Não são feriados, e sim dias úteis – dias em que nós somos úteis.
(Martha Medeiros. Todo santo dia.
https://oglobo.globo.com, 25.12.2022. Adaptado)
Assinale a alternativa em que o trecho reescrito do texto está em conformidade com a norma-padrão de colocação pronominal.