Magna Concursos
1288584 Ano: 2019
Disciplina: Português
Banca: FUNCERN
Orgão: Pref. Extremoz-RN

Viver mais só se for para viver melhor

Por Dr. Daniel Carlos

Em 1993, a revista Lancet publicou a carta do neurologista John Lewis sugerindo que a primeira descrição do quadro de demência de Alzheimer poderia ser atribuída ao escritor satírico Jonathan Swift, mais de um século antes de Alois Alzheimer formalizar tal descrição no meio científico. Para tanto, ele transcreve um trecho do livro “As Viagens de Gulliver”, no qual o protagonista conhece os Struldbruggs, habitantes imortais de uma das ilhas que visita.

Com sua ironia que beirava a misantropia, Swift trata a imortalidade não como um milagre, mas como uma maldição. Depois dos 80 anos, os Struldbruggs seguem envelhecendo, mas "só se lembram do que aprenderam e observaram em sua juventude e na meia-idade e, mesmo assim, de uma forma imperfeita. Não é seguro confiar em sua memória. Aliás, os menos infelizes dentre eles parecem ser os que ficam caducos e perdem inteiramente a memória".

Pela experiência de Gulliver, parece que a vida teria prazo de validade, que, ao ser expirado, estragaria progressivamente o produto — no caso, nós. Tanto que "ao completar 80 anos, legalmente é como se estivessem mortos. Seus herdeiros imediatamente tomam posse de seus bens, restando-lhe apenas uma pequena pensão para seu sustento. São considerados incapazes de exercer cargo de confiança ou atividade lucrativa". Claro que com o passar dos anos ninguém vai ficando mais jovem, o que só agrava a situação: "Aos 90, perdem dentes e cabelo; não distinguem mais o sabor das coisas. Só comem e bebem, sem gosto nem apetite, o que eventualmente conseguem. Permanecem as doenças, sem aumentar ou diminuir. Ao falar, esquecem o nome das coisas, das pessoas e até mesmo dos seus amigos e parentes mais próximos. Por isso mesmo, não são capazes de se divertir com a leitura, pois sua memória não é suficiente para levá-los do começo ao fim de uma frase".

Guardadas as liberdades literárias, não é difícil relacionar tal descrição à demência de Alzheimer, doença associada ao envelhecimento cuja prevalência aumenta com a idade, dobrando a cada cinco anos e atingindo mais da metade dos idosos que passam de 95 anos.

A morte, nessa perspectiva, parece a Gulliver uma bênção. "Depois do que ouvi e vi, meu vivo apetite pela vida eterna sofreu um grande abalo. Pensei que tirano algum poderia inventar uma morte pior que uma vida como aquela. O rei soube de tudo o que se passara e zombou de mim. Desejava que eu enviasse um par de Struldbruggs para meu próprio país, para armar nosso povo contra o medo da morte." Ironicamente, o próprio Johnatan Swift morreu demenciado anos depois.

Todos os esforços médico-sanitários na história da humanidade vêm convergindo para o aumento significativo de nossa longevidade. Motivados pelo pavor que temos da morte, nós estimulamos essas descobertas e as abraçamos com entusiasmos. O destino dos Struldbruggs serve não para nos fazer abandonar esses esforços, mas para lembrar que longevidade por si só não significa nada. Sem qualidade de vida ela parece mais um castigo.

Galileu, ed. 337, ago. de 2019.

A intenção prioritária do texto é

 

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