Leia o texto e responda as questões de 1 a 3.
INUNDAÇÃO
Há um rio que atravessa a casa. Esse rio, dizem, é o tempo. E as lembranças são peixes nadando ao invés da corrente. Acredito, sim, por educação. Mas não creio. Minhas lembranças são aves. A haver inundação é de céu, repleção de nuvem. Vos guio por essa nuvem, minha lembrança.
A casa, aquela casa nossa, era morada mais da noite do que dia. Estranho, dirão. Noite e dia não são metades, folha e versos? Como podiam o claro e o escuro repartir-se em desigual? Explico. Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite. Lá fora, a chuva sonhava, tamborileira. E nós éramos meninos para sempre.
Certa vez, porém, de nossa mãe escutámos o pranto. Era um choro delgadinho, um fio de água, um chilrear de morcego. Mão em mão, ficámos à porta do quarto dela. Nossos olhos boquiabertos. Ela só suspirou:
--- Vosso pai já não é meu. [...]
COUTO, Mia. O fio das missangas: contos.
São Paulo: Companhia das Letras, 2009. P 25. (Fragmento).
Assinale a alternativa em que se justifica a relação da mãe com os filhos, baseado no seguinte trecho: Bastava que a voz de minha mãe em canto se escutasse para que, no mais lúcido meio-dia, se fechasse a noite.