Leia o texto para responder a questão.
É melhor caminhar por este bairro antes das 6 da manhã, quando a poluição é mínima, e o barulho de veículos, suportável.
A cidade ainda está escura, e as padarias, fechadas. Na calçada do bar da esquina, há copos de plástico e sacos de lixo. Passo perto de pessoas conhecidas: um sem-teto deitado na grama da pracinha, um mendigo na entrada de uma estação de metrô, três empregados de uma padaria que frequento me dão bom-dia e nós quatro nos assustamos com os latidos de um cachorro que protegia a traseira de um carro, ultrapassando o limite da casa e invadindo a calçada, de modo que a mãe que empurra o carrinho de bebê tem de sair da calçada esburacada e andar na rua também esburacada.
No caminho de volta, há anos vejo a mulher na mesma posição: o rosto e os braços erguidos para o céu, o cabelo loiro e ondulado caindo até a cintura como se fosse uma manta dourada.
Quando saí para caminhar pela primeira vez, lembro que me desviei dessa mulher estranha, com seus gestos, usando um pijama de flanela e pantufas puídas – parecia uma atriz sem plateia, uma atriz que encena uma peça com os mesmos gestos e figurino num mesmo cenário, mas que muda o texto em cada encenação. Enchi um caderno com palavras que ela disse nesse tempo em que fui um de seus poucos espectadores, pedaços de frases que eu ouvia enquanto passava a dois metros da manta amarela, às vezes observando o que seria o jardim da casa da atriz: um matagal denso, escuro, cheio de árvores frutíferas, que me fazia recordar os quintais da minha infância. As últimas palavras que gravei e anotei foram “As asas da borboleta louca vão provocar um furacão, vocês não acreditam?” e “Deus, não merecemos tanto escárnio, tanto cinismo…”.
Na semana passada, não ouvi mais a voz dessa mulher. Fui tomado por uma tristeza enorme quando vi uma bananeira solitária onde antes havia um matagal. Parei diante da casa – a última casa antiga do meu bairro – e li no alto da fachada o ano em que foi construída: 1889. A janela da sala estava escancarada, pude ver uma peruca loira cobrindo a tela de um velho aparelho de TV e, sobre um sofá também velho, o pijama de flanela.
Se os herdeiros ao menos tivessem conservado as árvores do quintal, pensei. Mas nem isso. Agora as caminhadas serão tediosas sem a presença da atriz que dizia coisas tão insensatas e talvez verdadeiras.
(Milton Hatoum. A borboleta louca. https://cultura.estadao.com.br, 01.10.2010. Adaptado)
Quanto ao emprego do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que apresenta frase em conformidade com a norma-padrão da língua portuguesa.