TEXTO III
‘A única coisa que não pode ser comprada é o saber’, diz Nuccio Ordine
por Leonardo Cazes
RIO - Na abertura dos seus cursos na Universidade da Calábria, na Itália, o filósofo Nuccio Ordine sempre pergunta aos seus alunos: “por que vocês vieram para a universidade?”. A provocação de Ordine parte da sua constatação de que as instituições de ensino se tornaram meras fábricas que despejam jovens diplomados no mercado de trabalho, e não lugares aonde se vai para compreender o mundo e a si mesmo.
Contra uma visão utilitarista dos saberes, o filósofo escreveu o manifesto “A utilidade do inútil” (...), best-seller na Europa que chega agora ao Brasil.
Como convencer as pessoas da utilidade do que é considerado inútil?
É preciso olhar o mundo em que vivemos, onde a lógica do dinheiro domina tudo. A única coisa que não pode ser comprada é o saber. Não é possível se tornar um homem culto com um cheque em branco. Criamos um mundo onde as pessoas pensam apenas no seu próprio egoísmo. Perdeu-se de vista o sentido da solidariedade humana. Um mundo que nos obriga a viver na dor é um mundo possível? Eu não acredito. Os saberes, como a música, a literatura, a filosofia, a arte, nos ensinam a importância da gratuidade. Devemos fazer coisas que não buscam o lucro. A dignidade humana não é a conta que temos no banco. A dignidade humana é a nossa capacidade de abraçar os grandes valores, a solidariedade, o amor pela justiça, o bem-estar. Como convencer as pessoas disso? Meu argumento é que estamos numa rota autodestrutiva.
No livro, o senhor mostra que a discussão sobre o utilitarismo e o poder do dinheiro existe há séculos. O que há de diferente hoje?
Desde o período clássico, vários autores refletiram sobre o perigo do dinheiro. Mas, hoje, nós temos uma radicalização na busca pelo lucro que se tornou uma forma de autodestruição do próprio capitalismo. É a ânsia de ganhar mais e mais que vai destruir o capitalismo.
(O Globo, Segundo Caderno, p. 06 – 27/02/2016.)
Assinale V para as proposições verdadeiras e F para as falsas. A seguir, assinale a sequência correta.
( ) O “inútil” a ser valorizado pelas pessoas é a compreensão de si próprio e do mundo, a solidariedade, o amor pela justiça e o bem-estar.
( ) A visão utilitarista dos saberes diz respeito àqueles conhecimentos que são úteis na conquista do lucro e à manutenção de uma sociedade capitalista.
( ) A visão utilitarista dos saberes contribui na construção de uma sociedade mais evoluída moral e tecnologicamente, ou seja, contribui para o progresso do ser humano como um todo.
( ) Nas instituições de ensino, valorizam-se a literatura, a filosofia e a arte por serem disciplinas que ajudam na percepção do perigo do dinheiro.
( ) Paradoxalmente, a busca pelo lucro e a ânsia de acúmulo de capitais ensinam ao homem a importância da gratuidade e da solidariedade.