A produção do ambiente construído contemporâneo, seja no projeto urbano ou do edifício, não está isenta de implicações relacionadas ao poder, à demografia, à política, tanto no âmbito das Políticas de Estado quanto dos impactos sociais e econômicos dados pelas formas como se produzem as construções e as decorrências de implantação de suas morfologias nas cidades. Com base nesta reflexão, e no texto a seguir, considere as alternativas e marque aquela mais apropriada à ideia de justiça social na cidade.
OS DISCURSOS DO NEOLIBERALISMO ARQUITETÔNICO
Como vimos, no contexto mais geral do neoliberalismo, a arquitetura não é uma exceção: perdeu o senso crítico que teve até a década de 1970. Por isso, é preciso fomentar uma nova cultura arquitetônica crítica ao lado das novas narrativas dominantes da economia global. Também no terreno da arquitetura, a publicidade, a representação midiática e o glamour dos produtos vão além de sua própria realidade e materialidade. Portanto, é imprescindível desvelar e revelar, mostrar tudo aquilo que ela esconde. É natural que os arquitetos de prestígio no mercado global utilizem argumentos heterogêneos e contrapostos, muitas vezes afastados da arquitetura e do urbanismo que eles realmente fazem. Raciocínios polissêmicos e neoliberais dão cobertura para que se argumente a favor da sustentabilidade quando se recorre ao uso da alta tecnologia e à destruição do meio, de maneira que a experimentação formal é utilizada para legitimar a especulação ou para que se recorra a argumentos de justiça social, quando aquilo que se propõe é elitismo consumista.
Entre os profissionais do discurso duplo e da moral dupla, encontram-se aqueles que agem sob os auspícios de entidades financeiras e organizações religiosas de caráter marcadamente reacionário, promovendo eventos culturais, revistas e congressos a partir dos quais se pretende construir alternativas e mostrar arquiteturas comprometidas com o planeta e com a sociedade. A maior parte dos arquitetos-estrela praticam esse discurso duplo. Dentre estes estão Renzo Piano, Richard Rogers, Norman Foster, Jean Nouvel e Ricardo Legorreta, que, por um lado, participam dos foros em defesa do urbanismo sustentável e, por outro, prestam-se a operações de alta tecnologia e alto consumo, que não têm a ver com o meio, geram urbanizações fechadas, segregam socialmente e destroem patrimônio social, urbano e paisagístico. São estrelas que servem para legitimar processos especulativos e de expulsão dos habitantes de áreas nas quais trabalham, porém sem conhecê-las. Como bons arquitetos do príncipe contemporâneo, basta-lhes o plano ou o mapa para destruírem e construírem em qualquer lugar.
(MONTANER, Josep Maria; MUXÍ, Zaida. Arquitetura e política. Ensaios para mundos alternativos. São Paulo: Gustavo Gili, 2014. p. 313-314).