TEXTO 1
A mãe da menina e a menina da mãe
Eu sou uma menina de sete anos de idade. Eu moro numa casa grande, de dois andares. Adoro subir e descer a escada. Meus irmãos acham que eu sou boba de gostar tanto dessa escada. Mas eu gosto e pronto. Uma das brincadeiras que eu faço é pegar a colcha da minha cama e transformar em capa. Aí desço a escada imaginando que eu sou uma rainha.
Já contei que eu tenho irmãos. São dois. Na minha casa moram o meu pai e a minha avó também.
Fazia tempo que eu olhava pra minha mãe e não entendia por que ela era tão nervosa. Ela estava sempre reclamando que cansa ser donade- casa. E eu adoro brincar de casinha! Adoro comprar coisas também. Eu não entendia por que ela vinha do supermercado quase chorando de raiva e cansaço.
Minha mãe resmungava, também, de ter de cuidar de três filhos.
— Como vocês me dão trabalho! — ela dizia.
Às vezes ela dizia que tinha CINCO filhos, que meu pai e minha avó também eram filhos dela, e davam o mesmo trabalho.
Engraçado, eu adorava tomar conta das minhas bonecas.
“Eu podia ter vinte e sete filhos!”, eu pensava.
Então, um dia, eu fiz a primeira descoberta: tudo o que eu faço de brincadeira, minha mãe tem de fazer de verdade. Quando canso de trocar a roupa e dar comidinha pras minhas bonecas, guardo no armário. Já pensou se minha mãe não quisesse mais brincar e me enfiasse no guarda-roupa?
Eu contei a minha descoberta pra ela, que me olhou espantada e disse:
— Foi você mesma que teve esta idéia?(a)
Olha só como os adultos são! Eles imaginam que criança só pensa em gatinhos e bonecas e gangorras e video games e panteras cor-de-rosa!
— É claro que fui eu. E não é verdade?
— Não — respondeu minha mãe —, quer dizer, mais ou menos. Eu fico cansada, mas adoro ser mãe de vocês três... cinco. E eu reclamo por reclamar.
Ela me disse pra parar de pensar nisso tudo, pra esquecer, era bobagem. Quando eu crescesse, ia entender. E completou:
— Vai brincar, menina!
Acontece que eu não queria entender só quando eu crescesse. E continuei pensando.
Então eu comecei a procurar pela casa alguma coisa que não sabia bem o que era. Mas que sabia que existia, e que ia me ajudar a entender aquela coisa que eu sentia agora,(b) toda vez que olhava pra minha mãe.
Eu abri o guarda-roupa dela e mexi em todas as roupas. E continuei mexendo e remexendo.
Foi então que achei umas fotografias amareladas numa caixa. Tinha umas de minha avó com a cara lisinha, meu pai de uniforme, minha mãe de noiva... aí achei umas ainda mais antigas.
Numa delas, havia uma menina muito parecida comigo. Mas o vestido era compridão, o sapato engraçado.
E esta foi a segunda descoberta:(c) minha mãe já tinha sido criança antes! É claro que eu sabia que ia crescer e casar e ter filhos. Mas eu nunca tinha pensado que a minha mãe tinha sido do meu tamanho. E brincado de casinha!
Nesse dia, de noite, eu fiquei olhando pra minha mãe enquanto ela assistia televisão.
Estava passando um filme engraçado que depois ficou triste.
Eu vi ela rir e quase chorar. Então, eu fiz a maior descoberta de todas:(d) aquela menina de vestido compridão e sapato engraçado ainda existia. E morava lá dentro da minha mãe.(e)
(Flávio de Souza, “Quem conta um conto”, vol. 2, FTD, São Paulo, 2001.)
“Ela me disse pra parar de pensar nisso tudo, pra esquecer, era bobagem”.
No trecho acima, a palavra sublinhada é resultado da contração da preposição em + isso. Nos fragmentos abaixo, a palavra sublinhada que apresenta a mesma classificação gramatical de isso é: