O pensamento não é monológico. As lacunas e o próprio caráter predicativo que lhe é inerente denunciam a presença de um outro; e é esse pensamento dialógico que fornece o pano de fundo para a escrita. Para sua constituição, foi necessário que se internalizasse, de forma problemática e contraditória, a fala egocêntrica que o precedeu; mas foi fundamental, também, que se internalizasse a duplicidade, ou mesmo, a pluralidade de vozes presente no jogo do ‘faz de conta’ infantil. Através dessa ótica, queremos, entre outros motivos, atribuir ao jogo de faz de conta uma dimensão muito mais ampla do que a de uma mera brincadeira, na interpretação lúdica e descomprometida da palavra. Dentro dessa brincadeira, não só se constroem personalidades no sentido alternante de um eu e de um outro. Constroem-se personalidades complexas, que envolvem, problematicamente, o eu e o outro. E isto não é tudo: cabe ainda falar das palavras propriamente ditas, pois é dentro do ‘faz de conta’ que elas adquirem duplicidade e polissemia. É dentro do faz de conta que a vassoura é vassoura, mas é também cavalo; o caixote é caixote, mas é também um barco, e assim por diante. De um sentido monossêmico, as palavras se transformam, como que num passe de mágica, em cabides, em entradas para múltiplas significações.
(MARTINS, M. S. Cintra. A escrita e as outras linguagens. Revista de Linguística. São Paulo, v. 47, nº 2, 2003. Pág. 50-51. Fragmento.)
Diante do exposto, é correto afirmar que a afirmativa que sintetiza a ideia central do trecho anterior, considera que o “faz de conta”: