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2037888 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: Col.Mil. Rio de Janeiro
Orgão: Col.Mil. Rio Janeiro
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TEXTO I

NO RETIRO DA FIGUEIRA

(Moacyr Scliar)

01___Sempre achei que era bom demais. O lugar, principalmente. O lugar era... era maravilhoso.

Bem como dizia o prospecto: maravilhoso. Arborizado, tranquilo, um dos últimos locais — dizia o

anúncio — onde você pode ouvir um bem-te-vi cantar. Verdade: na primeira vez que fomos lá,

ouvimos o bem-te-vi. E também constatamos que as casas eram sólidas e bonitas, exatamente como

05___o prospecto as descrevia: estilo moderno, sólidas e bonitas. Vimos os gramados, os parques, os

pôneis, o pequeno lago. Vimos o campo de aviação. Vimos a majestosa figueira que dava nome ao

condomínio: Retiro da Figueira.

Mas o que mais agradou à minha mulher foi a segurança. Durante todo o trajeto de volta à

cidade — e eram uns bons cinquenta minutos — ela falou, entusiasmada, da cerca eletrificada, das

10___torres de vigia, dos holofotes, do sistema de alarmes — e sobretudo dos guardas. Oito guardas,

homens fortes, decididos - mas amáveis, educados. Aliás, quem nos recebeu naquela visita, e na

seguinte, foi o chefe deles, um senhor tão inteligente e culto que logo pensei: “ah, mas ele deve ser

formado em alguma universidade”. De fato: no decorrer da conversa ele mencionou — mas de

maneira casual — que era formado em Direito. O que só fez aumentar o entusiasmo de minha mulher.

15___Ela andava muito assustada ultimamente. Os assaltos violentos se sucediam na vizinhança;

trancas e porteiros eletrônicos já não detinham os criminosos. Todos os dias sabíamos de alguém

roubado e espancado; (...) minha mulher decidiu — tinhamos de mudar de bairro. Tínhamos de

procurar um lugar seguro.

Foi então que enfiaram o prospecto colorido sob nossa porta. s vezes penso que se

20___morássemos num edifício mais seguro, o portador daquela mensagem publicitária nunca teria

chegado a nós, e, talvez... Mas isto agora são apenas suposições. De qualquer modo, minha mulher

ficou encantada com o Retiro da Figueira. Meus filhos estavam vidrados nos pôneis. E eu acabava de

ser promovido na firma. As coisas todas se encadearam, e o que começou com um prospecto sendo

enfiado sob a porta transformou-se — como dizia o texto — num novo estilo de vida.

25___Não fomos o primeiro a comprar casa no Retiro da Figueira. Pelo contrário, entre nossa

primeira visita e a segunda — uma semana após — a maior parte das trinta residências já tinha sido

vendida. O chefe dos guardas me apresentou a alguns dos compradores. Gostei deles: gente como

eu, diretores de empresa, profissionais liberais, dois fazendeiros. Todos tinham vindo pelo prospecto.

E quase todos tinham se decidido pelo lugar por causa da segurança. Naquela semana descobri que

30___o prospecto tinha sido enviado a uma quantidade limitada de pessoas. Na minha firma, por exemplo,

só eu o tinha recebido. Minha mulher atribuiu o fato a uma seleção cuidadosa de futuros moradores

— e viu mais um motivo de satisfação. Quanto a mim, estava achando tudo muito bom. Bom demais.

Mudamo-nos. A vida lá era realmente um encanto. Os bem-te-vis eram pontuais: às sete da

manhã, começavam seu concerto. Os pôneis eram mansos, as aleias ensaibradas estavam sempre

35___limpas. A brisa agitava as árvores do parque - cento e doze, bem como dizia o prospecto. Por outro

lado, o sistema de alarmes era impecável. Os guardas compareciam periodicamente à nossa casa

para ver se estava tudo bem — sempre gentis, sempre sorridentes. O chefe deles era uma pessoa

particularmente interessada: organizava festas e torneios, preocupava-se com nosso bem-estar. Fez

uma lista dos parentes e amigos dos moradores — para qualquer emergência, explicou, com um

40___sorriso tranquilizador. O primeiro mês decorreu — tal como prometido no prospecto — num clima de

sonho. De sonho, mesmo.

Uma manhã de domingo, muito cedo — lembro-me que os bem-te-vis ainda não tinham

começado a cantar — soou a sirene de alarmes. Nunca tinha tocado antes, de modo que ficamos um

pouco assustados - um pouco, não muito. Mas sabíamos o que fazer: nos dirigimos, em ordem, ao

45___salão e festas, perto do lago. Quase todos ainda de roupão ou pijama.

O chefe dos guardas estava lá, ladeado por seus homens, todos armados de fuzis. Fez-nos

sentar, ofereceu café. Depois, sempre pedindo desculpas pelo transtorno, explicou o motivo da

reunião: é que havia marginais nos matos ao redor do Retiro e ele, avisado pela polícia, decidira pedir

que não saíssemos naquele domingo.

50___- Afinal — disse, em tom de gracejo — está um belo domingo, os pôneis estão aí mesmo, as

quadras de tênis...

Era mesmo um homem muito simpático. Ninguém chegou a ficar verdadeiramente

contrariado.

Contrariados ficaram alguns no dia seguinte, quando a sirene tornou a soar de madrugada.

55___Reunimo-nos de novo no salão de festas, uns resmungando que era segunda-feira, dia de trabalho.

Sempre sorrindo, o chefe dos guardas pediu desculpas novamente e disse que infelizmente não

poderíamos sair - os marginais continuavam nos matos, soltos. Gente perigosa; entre eles, dois

assassinos foragidos. pergunta de um irado cirurgião, o chefe dos guardas respondeu que, mesmo

de carro, não poderíamos sair; os bandidos poderiam bloquear a estreita estrada do Retiro.

60___— E vocês, por que não nos acompanham? — perguntou o cirurgião.

— E quem vai cuidar da família de vocês? — disse o chefe dos guardas, sempre sorrindo.

Ficamos retidos naquele dia e no seguinte. Foi aí que a polícia cercou o local: dezenas de

viaturas com homens armados, alguns com máscaras contra gases. De nossas janelas, nós os víamos

e reconhecíamos: o chefe dos guardas estava com a razão.

65___Passávamos o tempo jogando cartas, passeando ou simplesmente não fazendo nada. Alguns

estavam até gostando. Eu não. Pode parecer presunção dizer isto agora, mas eu não estava gostando

nada daquilo.

Foi no quarto dia que o avião desceu no campo de pouso. Um jatinho. Corremos para lá.

Um homem desceu e entregou uma maleta ao chefe dos guardas. Depois olhou para nós —

70___amedrontado, pareceu-me — e saiu pelo portão da entrada, quase correndo.

O chefe dos guardas fez sinal para que não nos aproximássemos. Entrou no avião. Deixou a

porta aberta, e assim pudemos ver que examinava o conteúdo da maleta. Fechou-a, chegou à porta e

fez um sinal. Os guardas vieram correndo, entraram todos no jatinho. A porta se fechou, o avião

decolou e sumiu.

75___Nunca mais vimos o chefe e seus homens. Mas estou certo de que estão aproveitando o

dinheiro pago por nosso resgate. Uma quantia suficiente para construir dez condomínios iguais ao

nosso — que eu, diga-se de passagem, sempre achei que era bom demais.


(Adaptado de SCLIAR, Moacyr. No Retiro da Figueira. - Contos contemporâneos. São Paulo: Moderna, 2005. p. 76.)

ara organizar e executar todos os protocolos de segurança do condomínio, o chefe dos guardas se comportou de forma educada e impecável, o que lhe rendeu elogios que, nos parágrafos 2 e 6 do TEXTO I, dão a ele a imagem de

 

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