Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Santa Maria Jetibá-ES
Texto I
A beleza total
A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços.
A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa.
O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito.
Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou cintilando no salão fechado a sete chaves.
(DE ANDRADE, Carlos Drummond. Contos plausíveis. Editora Companhia das Letras, 2012.)
Texto II
Receita de Mulher
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture*
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. [...]
(Haute couture: alta-costura, em francês. MORAES, Vinícius de. Receita de mulher. Antologia poética. Rio de Janeiro, Editora do Autor, p. 232, 1965.)
Algumas palavras, embora terminem em “-ão” (terminação popularmente conhecida por indicar o valor aumentativo de um termo), não representam flexão de grau e, portanto, não têm uma palavra que corresponda à ausência dessa terminação. Um exemplo é “amigão”, que tem “amigo”, pois nesse caso a terminação “-ão” indica a flexão de grau. Já em “mão”, a mesma terminação não indica flexão de grau, e o aumentativo da palavra pode ser “manzorra”, “manopla” ou “manápula”. Abaixo se dispõem outros termos retirados do texto I que, embora terminem em “-ão”, tampouco denotam flexão de grau de uma outra palavra, EXCETO em: