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1284650 Ano: 2019
Disciplina: Português
Banca: RBO
Orgão: Pref. Monte Mor-SP
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Medo da eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha aprovado chicles e e mesmo em recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar, com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa me explicou:

— Tome cuidado para não perder, por que esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.

— Como não acaba? — Parei um instante na rua, perplexa.

— Não acaba nunca, e pronto.

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só pra faze-la durar mais. E eis me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

— Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

— E agora que é que eu faço? — perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.

— Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E ai mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

Perder a eternidade?Nunca.

O adocicado era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamos-nos para a escola.

— Acabou-se o docinho. E agora?

— Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por que. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava.

Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser a bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão da areia.

— Olha só o que me aconteceu! — Disse eu em fingidos espanto e tristeza. — Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

— Já lhe disse, repetiu minha irmã, que ela não acaba nunca. Mas a gente as vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

(Clarisse Lispector. In A descoberta do mundo. pp.289-281).

Sobre o texto, analise as alternativas abaixo.

I. A crônica em que se passa em um momento do passado da narradora, mais precisamente sobre a primeira vez ela experimentou um chiclete.

II. Apesar da estranheza final, a experiência da narradora correspondeu à sua expectativa inicial.

III. No início a narradora ficou com medo de perder o chiclete que, para ela, era uma espécie de personificação da eternidade, porem no fim, ao deixar o doce cair, sentiu-se aliviada por não precisar carregar o preço da eternidade consigo.

É correto o que se afirma em

 

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