Leia o texto a seguir para responder às questões de 1 a 10.
O menino e o passarinho
Se essa história é difícil de acreditar é porque ela se passa na terra do Faz de Conta, onde passarinho fala. Foi o que o menino descobriu, quando ouviu o passarinho dizer — por nenhuma razão, só para implicar com ele:
— Passarinho é melhor do que gente. Depois de se recuperar do susto, o menino perguntou:
— Como assim?
— Para começar — disse o passarinho — nós somos mais bonitos. Olhe essa plumagem. Olhe essa combinação de cores em dégradé.
— Nós também somos bonitos — disse o menino.
— São nada.
— Olhe essa camisa cor de abóbora.
Essas calças roxas...
— Que sua mãe comprou para você. A minha beleza nasceu comigo. Eu sou bonito de graça!
Enquanto o menino pensava numa resposta, o passarinho continuou:
— Vocês sabem voar? Nós sabemos.
— Nós também sabemos.
— Sabem nada.
— Temos aviões que nos levam para qualquer lugar. Atravessamos oceanos. Chegamos mais alto do que qualquer passarinho chegou. Já chegamos à Lua!
— Para voar em avião precisa comprar passagem. Entrar na fila do check-in. Despachar a bagagem, que pode se extraviar. E para ir mais longe do que qualquer passarinho já foi, precisam de foguetes e programas espaciais caros. Nós, para voar, só precisamos abrir as asas.
— Sim, certo, mas...
— Você já viu alguma coisa mais linda do que uma revoada de pássaros ao anoitecer? Não existe espetáculo sequer parecido, na Terra.
O menino pensou num desfile de escola de samba, mas decidiu não dizer nada. O passarinho tinha claramente vencido a discussão. Faltava só um golpe de misericórdia, para liquidar com o menino.
— E além de tudo, eu canto — disse o passarinho.
— Eu também — disse o menino.
— Canta nada. Ouça.
E o passarinho começou a assoviar. Uma única frase, várias vezes. E o menino pediu:
— Canta outra.
— Como, outra? Esse é o meu canto.
E o menino começou a assoviar todas as músicas que conhecia, de Jorge Ben Jor à Marselhesa. E o passarinho se afastou, lentamente, cabisbaixo, derrotado e pensando:
— É, preciso variar meu repertório…
VERISSIMO, L. F. Verissimo antológico: meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
A princípio, os posicionamentos do passarinho permitem concluir que ele: