Leia o texto que segue para responder às questões 27 a 33.
1. A morte do livro como veículo da literatura já foi
2.profetizada várias vezes na chamada época moderna. E
3.não por inimigos da literatura, mas pelos escritores
4.mesmos. Até onde me lembro, o primeiro a fazer essa
5.profecia foi nada menos que o poeta Guillaume
6.Apollinaire, no começo do século 20. Entusiasmado com
7.a invenção do gramofone (ou vitrola), acreditou que os
8.poetas em breve deixariam de imprimir seus poemas em
9.livros para gravá-los em discos, com a vantagem —
10.segundo ele, indiscutível — de o antigo leitor, tornado
11.ouvinte, ouvi-los na voz do próprio poeta. [...] De
12.qualquer modo, Apollinaire, que foi um bom poeta,
13.revelara-se um mau profeta, já que os poetas
14.continuaram a se valer do livro para difundir seus
15.poemas enquanto o disco veio servir mesmo foi aos
16.cantores e compositores de canções populares, [...]. O
17.mais recente profeta do fim do livro é o romancista
18.norte-americano Philip Roth, que, numa entrevista, fez
19.o prenúncio. Na verdade, ele anunciou o fim da própria
20.literatura e não por falta de escritores, mas de leitores.
21.Certamente, referia-se a certo tipo de literatura, pois
22.obras de ficção como "O Código Da Vinci" e "Harry
23.Potter" alcançam tiragens de milhões de exemplares
24.em todos os idiomas. Outro fenômeno que contradiz a
25.tese de que as pessoas lêem cada vez menos é o
26.crescente tamanho dos "bestsellers": ultimamente, os
27.volumes ultrapassam as 400 ou 500 páginas, havendo
28.os que atingem mais de 800. Tais dados põem em
29.dúvida, mais uma vez, as previsões da morte do livro e
30.da literatura. [...] A visão simplificadora consiste em não
31.levar em conta alguns fatores que estão ocultos, mas
32.atuantes na sociedade de massa: fatores qualitativos
33.que a avaliação meramente quantitativa ignora.
34.Começa pelo fato de que são as obras literárias de
35.qualidade, e não as que constituem mero passatempo,
36.que influem na construção do universo imaginário da
37.época. É indiscutível que tais obras atingem,
38.inicialmente, um número reduzido de leitores, mas é
39.verdade também que, através deles, com o passar do
40.tempo, influem sobre um número cada vez maior de
41.indivíduos — e especialmente sobre aqueles que
42.constituem o núcleo social irradiador das idéias.
43.Costumo, a propósito desta discussão, citar o exemplo 4
4.de um livro de poemas que nasceu maldito: "As Flores
45.do Mal", de Charles Baudelaire, cuja primeira edição,
46.em reduzida tiragem, data de 1857. Naquela mesma
47.época havia autores cujos livros alcançavam tiragens
48.consideráveis, que às vezes chegavam a mais de
30 49.mil exemplares. Esses livros cumpriram sua missão,
50.divertiram os leitores e depois foram esquecidos, como
51.muitos "bestsellers" de nossa época. Enquanto isso, o
52.livro de poemas de Baudelaire — cuja venda quase foi
53.proibida pela Justiça —, que vem sendo reeditado e
54.traduzido em todas as línguas, já deve ter atingido, no
55.total das tiragens, muitos milhões de exemplares. O
56.verdadeiro "best-seller" é ele ou não é? [...].
(Folha de São Paulo, 19/03/2006)
As preposições estabelecem relações semânticas entre termos de uma oração, sendo elas relevantes para a construção da coesão e da coerência textual. Assim, assinale a alternativa que apresenta a relação semântica estabelecida pelo vocábulo destacado na frase a seguir: “Costumo, a propósito desta discussão, citar o exemplo de um livro de poemas que nasceu maldito [...]”.