O crescimento da violência contra crianças e
adolescentes no Brasil.
A cada hora, três crianças são vítimas de
violência sexual no país. Segundo o boletim
epidemiológico do Ministério da Saúde divulgado
em 2023, entre 2015 e 2021 foram praticados
83.571 (41,2%) casos de violência contra crianças
(0 a 9 anos), 119.377 (58,8%) contra adolescentes
(10 a 19 anos) e 3.386 envolvendo bebês com até
um ano de idade, sendo em sua maioria estupro,
assédio e pornografia.
Outros dados alarmantes que chamam
atenção são os trazidos pelo Ministério dos Direitos
Humanos e da Cidadania, e apontam que nos
quatro primeiros meses de 2023, foram registradas
17,5 mil violações sexuais contra crianças e
adolescentes pelo Disque 100 – um aumento de
quase 70% em relação ao mesmo período de 2022.
Os números também mostram que 320 crianças e
adolescentes são explorados sexualmente no
Brasil e que esse índice pode ser ainda maior,
considerando a naturalização da violência e as
subnotificações, pois apenas 7 a cada 100 casos
são denunciados.
Diante desse contexto preocupante, o 18 de
maio demarca o Dia Nacional de Combate ao
Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e
Adolescentes, instituído pela Lei Federal nº
9.970/2000, após um caso emblemático de
violência sexual contra a menina Araceli, de
apenas 8 anos, que chocou o país. Desde então,
tem sido um marco anual para conscientizar a
população sobre a gravidade da situação de
violência contra crianças e adolescentes,
chamando a atenção de toda a sociedade para a
urgência e relevância na tomada de medidas que
garantam a proteção integral de crianças e
adolescentes, promovendo ações de incidência
política e amplas atividades de sensibilização sobre
a temática. Além disso, busca fortalecer a
divulgação dos canais de denúncia e apoio às
vítimas, e reiterar a importância de delatar os casos
de abuso.
Lamentavelmente, tal cenário ainda se faz
muito presente e perdura desde antes da
promulgação do marco regulatório dos direitos
humanos para a infância e adolescência no Brasil,
o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente
(1990). Diante desse contexto, é perceptível que
ainda se fazem necessárias iniciativas concretas
para a efetivação de políticas públicas que
garantam, de fato, a proteção e os direitos de
crianças e adolescentes, focando em medidas de
prevenção e respostas efetivas baseadas no
interesse superior da pessoa sobrevivente ao
abuso.
Infelizmente, a violência sexual é uma triste
realidade que acomete a infância e adolescência,
sobretudo, de meninas. Segundo a Organização
Mundial de Saúde, 75% das vítimas são meninas
e, em sua maioria, meninas negras. O que
comprova que a violência é um fenômeno
interseccional, apresentando, principalmente,
marcações de gênero e raça.
Importante ressaltar que 81% dos casos de
abuso contra crianças e adolescentes são
praticados por pessoas próximas da vítima e em
ambiente familiar, de acordo com dados do
Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, o
que demanda maior cuidado e atenção ao que se
refere às medidas para a proteção infantil e aos
sinais que crianças e adolescentes vítimas de
violência sexual podem demonstrar.
Tal fato também evidencia a importância na
conscientização e no investimento na autoproteção
de crianças e adolescentes, de forma que possam
participar de suas próprias proteções. Com esse
objetivo, a Plan International Brasil implementa
projetos como Cambalhotas, Down to Zero (DTZ) e
Aprender e Proteger, que focam na promoção de
conhecimentos específicos que auxiliem crianças e
adolescentes a identificarem situações de violência
e diferenciarem um carinho de um abuso, sabendo
onde buscar ajuda diante de circunstâncias
ameaçadoras. Os projetos oferecem informações
por meio de oficinas socioeducativas adequadas às
faixas etárias de participantes. A família e o
Sistema de Garantia de Direitos também são
envolvidos, por meio de uma abordagem centrada
na educação positiva e na oferta de ambientes
saudáveis e livres de violência, com o intuito de
garantir a proteção integral a crianças e
adolescentes.
A autoproteção infantil vem acompanhada
da educação sexual, uma vez que implementada
de forma assertiva e responsável, é considerada a
uma das principais formas de prevenção às
violências por abordar conceitos de consentimento,
integridade corporal, sentimentos, emoções, sonhos, identidade e tipos de toques que adultos
estão autorizados ou não em relação aos seus
corpos. É essencial para o desenvolvimento natural
e integral de todo ser humano, e quando
disseminada com qualidade, responsabilidade e
conteúdo adequado a cada faixa etária, é
extremamente protetiva.
Crianças e adolescentes sempre devem ser
ouvidos e suas falas levadas em consideração.
Comportamentos e possíveis mudanças bruscas
são fatores de alerta. Por isso, é importante que
seus responsáveis estejam sempre atentos.
Por isso, caso haja alguma suspeita, a
orientação é acolher, transmitir confiança e
demonstrar preocupação com o bem-estar da
vítima, sem se esquecer de denunciar o caso pelo
Disque 100. Lembre-se que a proteção das
crianças e adolescentes é uma responsabilidade
da família, da sociedade e do Estado, ou seja, é
uma responsabilidade de todas e todos nós.
Fonte: https://plan.org.br/noticias/por-que precisamosfalar-de-violencia-contra-criancas/(Acessado no dia
03/10/2024)