EU, ETIQUETA
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu nome de batismo ou de cartório.
[...]
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha toalha de banho e sabonete,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
[...]
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
[...]
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comparo, tiro glória
de minha anulação.
ANDRADE, Carlos. Drummond de. Obra poética. Lisboa: Publicações Europa-América, 1989.
Sobre o processo de globalização e o estímulo ao consumo mundial, é correto afirmar que o poema destaca