Atravesso um continente, me afasto de casa oito mil quilômetros, venho parar no Canadá. A vida aqui continua quase exatamente como lá, recebo as mesmas mensagens, leio as mesmas duras notícias, cumpro com disciplina as demandas da existência virtual. Ocupo um novo espaço, mas não desocupo o espaço prévio, não me desobrigo das urgências que não cessam, não escapo das estridências do meu cotidiano. Sem nem sair de casa, percorra o mundo inteiro, era o que nos prometia a utopia tecnológica. A realidade com que nos deparamos, percebo agora, é quase oposta: nem percorrendo o mundo inteiro, você conseguirá sair de casa.
Estava tomado por certa inquietude quando concebi este texto. Sentia a aguda dificuldade em fazer de uma viagem uma viagem, de me alienar dos meus lugares habituais, de me deixar visitar por novas paisagens e novos pensamentos. Caminhar pelas ruas de Montreal, como fiz por algumas horas na primeira tarde, me garantia ao menos a desconexão necessária, mas não chegava a me sossegar. São cada vez mais parecidas as ruas do mundo, era o que eu observava de novo. Os centros das grandes cidades, antigas ou modernas, ricas ou pobres, oferecem em diferentes fachadas as mesmas lojas, quase os mesmos restaurantes, os mesmos produtos em distintas embalagens. O capitalismo, que nos prometia variedade, tem sofrido de uma profunda falta de imaginação, ou melhor, tem sofrido de um conglomerado de multinacionais que limita toda a diversidade.
No quarto do hotel, com o celular à parte, também não adiantava me recolher. Ligar a televisão, como fiz na esperança de imergir por um momento em alguma cultura local, foi de uma previsível inutilidade. Em quase todos os canais não encontrava mais que programas conhecidos, em versões originais ou adaptadas, homens e mulheres encerrados numa casa em convivência banal, cantores fantasiados, pessoas lançadas nuas em terra selvagem. No jornal, notícias sobre os ataques russos na Ucrânia e a reação indignada da Casa Branca. Acabei me deixando ficar por alguns minutos num jogo de hóquei, que trazia lá sua singularidade bruta.
(Disponível em https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/julian-fuks/2022/05/07/nem-percorrendo-o-mundo-inteiro-voce-conseguira-sair-de-casa.htm. Acesso em 08.05.2022. Adaptado)
No trecho do 1º parágrafo – A realidade com que nos deparamos, percebo agora, é quase oposta: nem percorrendo o mundo inteiro, você conseguirá sair de casa –, os dois pontos foram empregados a fim de introduzir uma