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722311 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: FUNCAB
Orgão: SESAcre
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Leia o texto abaixo e responda à questão proposta.

Aquilo

– De uns tempos para cá, eu só penso naquilo.

– Eu penso naquilo desde os meus, sei lá, onze anos.

– Onze anos?

– É.E o tempo todo.

– Não. Eu, antigamente, pensava pouco naquilo. Era uma coisa que não me preocupava. Claro que a gente convivia com aquilo desde cedo. Via acontecer à nossa volta, não podia ignorar. Mas não era, assim, uma preocupação constante. Como agora.

– Pra mim sempre foi. Aliás, eu não penso em outra coisa.

– Desde criança?!

– De dia e de noite.

– E como é que você conseguia viver com isso, desde criança?

– Mas é uma coisa natural. Acho que todo mundo é assim. Você é que é anormal, se só começou a pensar naquilo nessa idade.

– Antes eu pensava, mas hoje é uma obsessão. Fico imaginando como será. O que eu vou sentir. Como será o depois.

– Você se preocupa demais. Precisa relaxar. A coisa tem que acontecer naturalmente. Se você fica ansioso é pior. Aí sim, aquilo se torna uma angústia, em vez de um prazer.

–Um prazer? Aquilo?

– Pra você não sei. Pra mim, é o maior prazer que um homem pode ter. É quando o homem chega ao paraíso.

– Bom, se você acredita nisso, então pode pensar naquilo como um prazer. Pra mim é o fim.

– Você precisa de ajuda, rapaz.

– Ajuda religiosa? Perdi a fé há muito tempo.

Da última vez que falei com um padre a respeito, só o que ele me disse foi que eu devia rezar. Rezar muito, para poder enfrentar aquilo sem medo.

– Mas você foi procurar logo um padre? Precisa de ajuda psiquiátrica. Talvez clínica, não sei. Ter pavor daquilo não é saudável.

– E eu não sei? Eu queria ser como você. Viver com a perspectiva daquilo naturalmente, até alegremente. Ir para aquilo assoviando.

– Ah, vou. Assoviando e dando pulinho. Olhe, já sei o que eu vou fazer. Vou apresentar você a uma amiga minha. Ela vai tirar todo o seu medo.

– Sei. Uma dessas transcendentalistas.

– Não, é daqui mesmo. Codinome Neca. Com ela é tiro e queda. Figurativamente falando, claro.

– Hein?

–O quê?

– Do que é que nós estamos falando?

– Do que é que você está falando?

– Daquilo. Da morte.

–Ah.

– E você?

– Esquece.

VERISSIMO, Luis Fernando. Aquilo. In: Novas Comédias da Vida Privada. PortoAlegre: L&PM, 1996. p. 43-44.

Acerca do fragmento “ – Não, é daqui mesmo. CODINOME Neca.” (§ 22), a alternativa que apresenta sentido diferente do termo destacado é:

 

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