Magna Concursos
1642904 Ano: 2012
Disciplina: Português
Banca: FUNIVERSA
Orgão: CBM-AP

Texto para responder às questões de 5 a 8.

1____Agora que se aproximam grandes chuvas,

inundações, temporais, furacões e deslizamentos de

encostas, temos de reaprender a escutar a natureza. Toda a

4 nossa cultura ocidental, de vertente grega, está assentada

sobre o ver. Não é sem razão que a categoria central — ideia

— (eidos, em grego) significa visão. A tele-visão é sua

7 expressão maior. Temos desenvolvido até os últimos limites

a nossa visão. Penetramos com os telescópios de grande

potência até a profundidade do universo para ver as galáxias

10 mais distantes. Descemos às derradeiras partículas

elementares e ao mistério íntimo da vida. O olhar é tudo para

nós. Mas devemos tomar consciência de que esse é o modo

13 de ser do homem ocidental, e não de todos.

Outras culturas, como as próximas a nós, as

andinas (dos quéchuas e aimaras e outras) estruturam-se ao

16 redor do escutar. Logicamente eles também veem. Mas sua

singularidade é escutar as mensagens daquilo que veem. O

camponês do altiplano da Bolívia diz: “Eu escuto a natureza,

19 eu sei o que a montanha me diz”. Falando com um xamã, ele

testemunha: “Eu escuto a Pachamama e sei o que ela está

me comunicando”. Tudo fala: as estrelas, o sol, a lua, as

22 montanhas soberbas, os lagos serenos, os vales profundos,

as nuvens fugidias, as florestas, os pássaros e os animais.

As pessoas aprendem a escutar atentamente essas vozes.

25 Livros não são importantes para eles porque são mudos, ao

passo que a natureza está cheia de vozes. E eles se

especializaram de tal forma nessa escuta que sabem, ao ver

28 as nuvens, ao escutar os ventos, ao observar as lhamas ou

os movimentos das formigas, o que vai ocorrer na natureza.

Para a cultura andina, tudo se estrutura dentro de

31 uma teia de relações vivas, carregadas de sentido e de

mensagens. Percebem o fio que tudo penetra, unifica e dá

significação. Nós, ocidentais, vemos as árvores, mas não

34 percebemos a floresta. As coisas estão isoladas umas das

outras. São mudas. A fala é só nossa. Captamos as coisas

fora do conjunto das relações. Por isso nossa linguagem é

37 formal e fria. Nela temos elaborado nossas filosofias,

teologias, doutrinas, ciências e nossos dogmas. Mas esse é

o nosso jeito de sentir o mundo. E não é de todos os povos.

40___Os andinos ajudam-nos a relativizar nosso pretenso

“universalismo”. Podemos expressar as mensagens por

outras formas relacionais e includentes, e não por aquelas

43 objetivísticas e mudas a que estamos acostumados. Eles nos

desafiam a escutar as mensagens que nos vêm de todos os

lados.

46___Nos dias atuais, devemos escutar o que as nuvens

negras, as florestas das encostas, os rios que rompem

barreiras, as encostas abruptas, as rochas soltas nos

49 advertem. As ciências da natureza ajudam-nos nessa escuta.

Mas não é o nosso hábito cultural captar as advertências

daquilo que vemos. E então nossa surdez nos faz vítimas de

52 desastres lastimáveis. Só dominamos a natureza,

obedecendo a ela, quer dizer, escutando o que ela nos quer

ensinar. A surdez nos dará amargas lições.

Leonardo Boff. Paradigma: escutar a natureza. Internet:

<http://oglobo.globo.com> (com adaptações).

Acesso em 9/1/2012.

Assinale a alternativa que apresenta um fragmento do texto que sintetiza o ato de ouvir a natureza.

 

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