O povo indígena Krenak desconfia da ideia de que a humanidade seja predestinadae. A ideia do nosso povo sobre a criatura humana é precária. Por desconfiarmos desse destino humano, nós nos filiamos aos rios, às pedras, às plantas e a outros seres com quem temos afinidade. É importante saber com quem podemos nos associar, em uma perspectiva existencial mesmo, em vez de ficarmos convencidos de que estamos com a bola todad.
Foi esse ponto de observação que me fez afirmar que nós não somos a humanidade que pensamos serb. Se acreditamos que quem apita nesse organismo maravilhoso que é a Terra são os tais humanos, acabamos incorrendo no grave erro de achar que existe uma qualidade humana especialc. Ora, se essa qualidade existisse, nós não estaríamos hoje discutindo a indiferença de algumas pessoas em relação à mortea e à destruição da base da vida no planeta. Destruir os rios, as florestas, as paisagens, assim como ignorar a morte das pessoas, mostra que não há parâmetro de qualidade nenhum na humanidade, que isso não passa de uma construção histórica não confirmada pela realidade.
(Ailton Krenak. A vida não é útil, 2020. Adaptado)