Magna Concursos
4133705 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: SAMAE Campos Novos
Provas:

Original até no plágio

Por Humberto Werneck

Sabem os cronistas ___ que extremos pode levá-los a obrigação de encher um palmo de

jornal ou revista e não ter assunto para rechear o espaço.

Este é todo um longo e divertido capítulo do ofício. Divertido, é claro, apenas para o leitor,

que nem sempre poderia imaginar o pesadelo que foi para Paulo Mendes Campos, por exemplo,

alinhavar a deliciosa “Vaidades e uma explicação” ou, para Antônio Maria, pôr de pé sua

impecável “Amanhecer no Margarida’s”.

Fernando Sabino lembrou com muita graça o dia em que o colega Rubem Braga, ___

míngua de assunto, lhe perguntou se tinha alguma crônica usada que pudesse lhe ceder.

Organizadíssimo, o escritor mineiro baixou a seus arquivos e de lá trouxe a história de uma sopa

servida a preço irrisório no Centro do Rio de Janeiro. O Velho Braga apanhou a crônica, deu um

tapinha no texto e publicou.

Tempos mais tarde, foi Sabino quem precisou de crônica de segunda mão, e fez ao amigo

a mesma pergunta que ele lhe fizera. Braga mexeu e remexeu em seus papéis e o que exumou

ali? Justamente ___ crônica da sopa dos pobres. Fernando ensaiou reclamação, mas, sem

alternativa, engoliu a requentada sopa, com o trabalho adicional de trocar alguns ingredientes,

de forma a disfarçar o sabor de coisa por demais manjada. Por via das dúvidas, para cortar

qualquer possibilidade de mais idas e vindas, enfiou ali a informação de que o maldito caldo ia

sumir do cardápio.

O mesmo Braga tem duas outras histórias célebres de saídas brilhantes para o sufoco da

falta de assunto. Numa das crises de inspiração zero, ainda no começo da carreira, ele encheu

sua coluna, num jornal paulistano, de impropérios contra o leitor, sobre o qual despejou até

mesmo pragas de forma tão graciosa, porém, que se tornou impossível abandonar a leitura,

arrematada com um “Passe mal!”.

Pela mesma época, Rubem Braga saiu-se ainda mais brilhantemente no dia em que, sem

outro recurso, decidiu simplesmente publicar crônica alheia, de autoria de um amigo, ainda por

cima, Carlos Drummond de Andrade, estampada fazia pouco num jornal de Belo Horizonte.

Não, não se vai contar aqui a saborosa história – trate, sem mais tardança, de buscá-la

por conta própria, e se regale com a criatividade de Rubem Braga, brilhante até mesmo quando

recorre a texto que não seja seu.

(Disponível em: cronicabrasileira.org.br/res-do-chao/12332/original-ate-no-plagio – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando a distinção entre fato e hipótese na construção do texto, analise as assertivas a seguir:

I. A afirmação de que o leitor “nem sempre poderia imaginar o pesadelo” vivenciado pelos escritores ao “alinhavar” um texto constitui uma hipótese do autor sobre a percepção e o estado mental do público.

II. O relato sobre Rubem Braga ter publicado uma crônica de autoria de Carlos Drummond de Andrade, originalmente impressa em um jornal de Belo Horizonte, é apresentado como um fato que sustenta a argumentação.

III. A caracterização da crônica de Antônio Maria como “impecável” e a de Paulo Mendes Campos como “deliciosa” são tratadas como fatos linguísticos objetivos, independentes do juízo de valor do narrador.

IV. A sugestão de que o leitor “se regale” com a criatividade de Braga ao buscar a história por conta própria configura uma hipótese ou projeção do autor sobre o efeito que a leitura causará.

Quais estão corretas?

 

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