Nenhum gordo gosta de ser gordo. Sobe na balança e tem um incoercível pudor, uma vergonha convulsiva do próprio peso. E, no entanto, vejam: — pior do que ser gordo é o inverso, quer dizer, pior do que ser gordo é ser magro. Digo isto a propósito de Feola*, o meu personagem da semana. Ele está em Araxá e eu aqui. A despeito da distância, porém, é como se eu o estivesse vendo com a doce, a generosa cordialidade que é o clima dos gordos de todos os tempos. E aqui pergunto: — um Feola magro teria sido melhor para o escrete?
Não creio e explico. É preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de
paixões, de rancores, de fúrias tremendas. E, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que conheci são, fatalmente, magros. Acredito que Feola esteja no profundo e amargo arrependimento de ser gordo. Mas, se assim for, temos de admitir a sua ingenuidade. Pois uma de suas consideráveis vantagens de homem e, atrevo-me a dizê-lo, de técnico está nesta circunstância, que ele deplora e repudia. Numa terra de neurastênicos, deprimidos e irritados, convém ter o macio, o inefável humor dos gordos. A banha lubrifica as reações, amacia os sentimentos, amortece os ódios, predispõe ao amor.
RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais. Seleção e notas de
Ruy Castro. 3ª reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 55.
* Vicente Feola foi o treinador da seleção brasileira na Copa de 1958. O grosso da imprensa não o levava a sério, acusando-o de cochilar no banco de reservas durante os treinos.
Em relação ao vocabulário do texto, a substituição da palavra em destaque por aquela indicada nos parênteses mantém o sentido da informação em: