Magna Concursos
1642855 Ano: 2012
Disciplina: Português
Banca: FUNIVERSA
Orgão: CBM-AP
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Texto, para responder às questões 4 e 5.

1____Um dia, quando lhe perguntarem onde é que

nasceu, a moça poderá responder, sorrindo: “Na lixeira”. Pois

realmente foi ali que a jogaram, entre cascas de banana e

4 borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a

retiraram, viva, para que desse testemunho: até numa lixeira

a vida pode começar.

7____O suposto nascimento anterior, num quarto, não

vale para essa menina da Rua Pedro Américo; ele se

consumou na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez

10 sem que o pai tivesse notícia e mesmo sem que a mãe

tivesse notícia do pai. Não era desejado, não veio precedido

de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação.

13 Quem nasce sob tais condições negativas é como se não

nascesse, e a lixeira foi o instrumento providencial que

ocorreu à mãe dessa menina errada, para anular, em escala

16 individual, o efeito da explosão demográfica. Enquanto não

se decide a construção de crematórios para os que acabam

regularmente, aí está, para os que começam irregularmente,

19 o incinerador do lixo doméstico. Nem seria preciso queimar a

menina, com os demais detritos da casa. A morte viria

logo — necessária, oportuna, benfazeja.

22___Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma

imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas

mães solteiras, desesperadas ou não, lhe confiaram. Ficou

25 surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que

demonstram a inconveniência de salvar-se uma vida de

origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina

28 como a lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico

ou resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o

chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de

31 cozinha, ou a queda de uma lata vazia de pessegada sobre a

cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar,

dando-lhe ar pútrido e temperatura de fornalha, para que

34 melhor protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a

atenção do faxineiro.

E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas a

37 recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava

nascendo, na porcaria, uma criança; e outro menino não

nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais,

40 no estábulo, entre o farelo e o milho? A lixeira pode fazer as

vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que

quer manifestar-se de qualquer modo e não encontra outra

43 saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia

dessa lixeira, não salvaram, criaram a vida. Foi lá que a

criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos,

46 a ordem econômica e os últimos preconceitos lhe negaram

ou lhe impediram a existência.

A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria

49 reconhecida: “Devo minha vida a uma lixeira, foi nela que vim

ao mundo”. E nós também devemos alguma coisa a essa

lixeira: a lição de respeito à vida.

Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, v. 1.

Em várias passagens do texto, é mostrada a rejeição sofrida pela menina. Assinale a alternativa em que essa rejeição não aparece.

 

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