TEXTO:
AS PERNAS
Machado de Assis
Ora, enquanto eu pensava naquela gente, iam-me as pernas, levando, ruas abaixo, de modo que insensivelmente me achei à porta do Hotel Pharoux. De costume jatava aí; mas, não tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento de ação me cabe, e sim às pernas, que a fizeram. Abençoadas pernas! E há quem vos trate com desdém e indiferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conte, zangava-me quando vos fatigáveis, quanto não podíeis ir além de certo ponto, e me deixáveis com o desejo a avoaçar, à semelhança de galinha atada pelos pés.
Aquele caso porém, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vós deixastes à minha cabeça o trabalho de pensar em Virgília, e dissestes uma à outra: - Ele precisa comer, são horas de jantar, vamos leva-lo ao Pharoux; dividamos a consciência dele, uma parte fique lá com a dama, tomemos nós a outra, para que ele vá direito, não abalroe as gentes e as carroças, tire o chapéu aos desconhecidos, e finalmente chegue são e salvo ao hotel. E cumpristes à risca o vosso propósito, amáveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta página.
(Memórias Póstumas de Brás Cubas. Editora José Aguilar Ltda. Rio de Janeiro, 1959)
O sentimento do narrador para com as penas, que o levaram ao Hotel Pharoux apesar do seu pensamento estar em Virgília, é de: