Para responder à questão, considere a crônica "O homem que falava naiki" do escritor Luis Fernando Veríssimo (1936-2025).
Quando queriam dar uma ideia de erudição do dr. Solis, as pessoas diziam:
– Basta dizer que ele fala naiki.
Ninguém sabia onde, no mundo, se falava naiki e o próprio dr. Solis, sempre muito circunspecto1, não ajudava. Dizia apenas:
– É uma língua do grupo dravídico...
Os pais apontavam o dr. Solis às crianças como exemplo de inteligência e cultura.
Caravanas de estudantes iam à casa do dr. Solis. “Viemos beber da sua cultura”, dizia a professora. E as crianças, um pouco assustadas, rodeavam o dr. Solis na sua biblioteca. O dr. Solis sorria, pacientemente. Alguma pergunta?
– O senhor já leu todos esses livros?
– Já.
Às vezes uma se arriscava e pedia:
– Diz alguma coisa em naiki.
E o dr. Solis:
– Za cadu arrarmarral cadverno.
– Traduz.
– Bassau rarim ai montul?
O dr. Solis franziu a testa e ficou olhando para o forasteiro, sem dizer nada. Depois disse:
– Como?
Já com um ar superior, o outro repetiu:
– Bassau rarim ai montul?
Suspense na plateia. O dr. Solis seria desmascarado? Será que os céticos tinham razão? Que todo este tempo o dr. Solis mentia para eles e realmente não sabia uma palavra em naiki? Nem "bom dia"?
– Repita, por favor – pediu o dr. Solis.
– Bassau rarim ai montul?
Aí o dr. Solis sacudiu a cabeça lentamente e, com um sorriso de divertida condescendência para seu interlocutor, comentou:
– Esses dialetos...
Foi carregado em triunfo pelas ruas da cidade. Que cabeça! Na frente do cortejo ia o Lelo, gritando:
– É um potentado2. É um potentado!
1 circunspecto: reservado.
2 potentado: indivíduo poderoso.
Luis Fernando Veríssimo dirige-se diretamente a seus leitores no seguinte trecho da crônica: