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4178597 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UFLA
Orgão: UFLA

A ESTABILIDADE

"Nenhum servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento"

Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e

começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde

que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O

sonho tornou-se realidade em 1991. Como não tinha como pagar aluguel, consegui uma

vaga na Moradia Estudantil da Unicamp, na casa H2. Fazia minhas compras em uma

pequena mercearia. Ia e voltava a pé, com as sacolas contendo, basicamente, miojo,

atum enlatado, leite, achocolatado e bolachas recheadas para o café da manhã. Vida

simples. O dinheiro era literalmente contado para o transporte, a alimentação nos finais de

semana (miojo com atum ou cachorro-quente) e os tíquetes do bandejão. Às vezes,

sobravam alguns trocados, que eu gastava comprando livros nas extintas livrarias do

centro de Campinas.

Como cada centavo fazia diferença, eu sempre prestava muita atenção em onde e

como gastava meus cruzeiros. Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os

produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária,

pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.

Porém, o que realmente me tirou do sério foi que a diferença era sempre para mais, nunca

para menos. Erros genuínos têm padrão aleatório: uns para mais; outros, para menos.

Aquilo parecia intencional. Num rompante de raiva, perguntei: “Por que o preço sempre

sai mais caro?”. A moça do caixa não me respondeu. Seus olhos, angustiados e tristes,

encontraram os meus e, em silêncio, ela corrigiu o valor do produto.

Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo

daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por

que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela. Certamente, aquele “roubo” não iria

para o seu bolso, pois estava registrado, e uma rápida conferência contábil apontaria a

falta, caso ela se apropriasse da quantia surrupiada. Para mim, aquilo simplesmente não

fazia sentido. Minha raiva só aumentava a cada passo que dava. Já quase chegando à

Moradia, lembrei-me do olhar que trocamos. Um frio percorreu-me a espinha! E se ela

fosse obrigada a proceder assim? Não — pensei —, ninguém me forçaria a fazer aquilo.

Se alguém tentasse, eu pediria demissão na hora. Não trabalharia em um local onde o

padrão moral fosse tão baixo!

Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda

mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?

Aquela moça deveria ter uns trinta anos. Provavelmente, era casada. Teria filhos? Não sei.

Porém, se aquela fosse sua única fonte de renda, um pedido do patrão, por mais

indecente que fosse, soaria como uma ordem irrecusável. É, a vida não é simples, não.

Naquela altura, como estudante, minhas responsabilidades eram limitadas. Eu podia fazer

escolhas radicais, e o único afetado seria eu mesmo. Talvez aquela funcionária tivesse

que optar entre o certo e o errado, tendo como pano de fundo a sobrevivência dos

próprios filhos. O que eu faria naquela situação?

Gosto de fantasiar que optaria pelo certo. Ah, o autoengano! Sempre imaginamos

ser melhores do que realmente somos. Foi refletindo sobre esse acontecimento, décadas

depois, que compreendi uma das principais razões para a estabilidade dos servidores

públicos de todas as esferas governamentais. Sei que, para muitos cidadãos, a

estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os

incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas. Nenhum

servidor público pode ser coagido a realizar um malfeito por medo de perder seu sustento.

Na eventualidade de um superior hierárquico (ou qualquer indivíduo) assediá-lo para que

cometa um ato ilícito, ele pode simplesmente se recusar. Obviamente, não sejamos

ingênuos: sofrerá outros tipos de retaliação, mas não perderá o emprego e, portanto, não

exporá a família a privações. A estabilidade permite que o servidor público faça sempre o

certo. Quiçá usassem mais esse “superpoder”! Aquela atendente do caixa poderia

racionalizar seu desvio de conduta e até dormir em paz, mas nenhum servidor público

com estabilidade terá aquele atenuante — não lhe restando alternativa senão encarar a

própria pusilanimidade ou mau-caratismo.

Michel Yamagishi

Disponível em: https://jornal.unicamp.br/artigo/2025/12/01/a-estabilidade/.

À luz das estratégias argumentativas utilizadas para sustentar o posicionamento do autor em defesa da estabilidade, leia os excertos a seguir e avalie as análises apresentadas:

I – “Nasci em Manaus, em 1971. A Zona Franca tinha apenas 14 anos de existência e começava a produzir seus efeitos benéficos na cidade. Mesmo sendo muito pobre, desde que me entendo por gente sempre quis ser cientista. Sonhava em estudar na Unicamp. O sonho tornou-se realidade em 1991.” (linhas 1 a 4) ⇒ Argumento de autoridade: o narrador-autor, com base no prestígio associado ao fato de ter estudado na Unicamp e de ser cientista, busca legitimar o seu ponto de vista, fazendo de sua formação acadêmica o principal fundamento da tese sobre a estabilidade.
II – “Lembro-me de uma ocasião em que, ao passar os produtos pelo caixa do supermercado, acabei perdendo a paciência com a funcionária, pois, pela milésima vez (obviamente uma hipérbole), precisava reclamar do preço errado.” (linhas 13 a 15) ⇒ Argumento por exemplificação: o episódio relatado é um caso, que ilustra a situação de trabalhadores submetidos a ordens questionáveis, servindo de base para a reflexão sobre coação econômica e para a defesa da estabilidade como mecanismo de proteção da ética no serviço público.
III – “Meus pensamentos já iam se dispersando quando me ocorreu outra dúvida, ainda mais incômoda: e se eu fosse casado e tivesse filhos? Será que a decisão seria tão fácil?” (linhas 31 e 32) ⇒ Raciocínio hipotético/contrafactual: ao se imaginar em outra condição (casado, com filhos), o narrador complexifica seu juízo inicial e introduz um cenário hipotético que evidencia o peso das responsabilidades familiares nas decisões éticas.
IV – “Sei que, para muitos cidadãos, a estabilidade parece um privilégio injustificável. Entretanto, sem ela, multiplicam-se os incentivos para que servidores cedam a pressões políticas e econômicas.” (linhas 43 a 45) ⇒ Argumento de causa e consequência: o autor menciona uma objeção à estabilidade e, em seguida, relaciona a ausência desse direito ao aumento de pressões indevidas sobre o servidor, estabelecendo um nexo causal entre falta de estabilidade e vulnerabilidade ética.
V – “Na volta para casa, carregando minhas compras, não parava de pensar no absurdo daquela situação. Errar o preço para mais, consistentemente, era um tipo de roubo. Por que ela faria aquilo? Eu era tão pobre quanto ela.” (linhas 21 a 23) ⇒ Argumento por generalização: ao considerar que o erro constante “para mais” configura “um tipo de roubo” e lembrar que também era pobre, o narrador formula uma conclusão geral sobre a desonestidade da funcionária, estendendo aquele caso específico a um julgamento amplo sobre o comportamento de trabalhadores em situação semelhante.

Assinale a alternativa CORRETA:

 

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