Texto
No momento em que se denuncia o assassinato de crianças e adolescentes no Brasil, é importante que se amplie essa denúncia, expondo para a memória coletiva o enigma dessas mortes consentidas. O que estarrece é, sobretudo, a falta de indignação em resposta à morte da esperança do novo.
É uma realidade desumana e violenta que implica o crime contra menores que buscam sobreviver em uma sociedade insensibilizada pelo cinismo da imediatez do lucro. Já nascem como massa marginal de que o sistema não necessita para funcionar como um todo.
É preciso avisar às pessoas que naquele corpo de criança reside a imortalidade, e que a imortalidade é mortal se a memória se perde como morta; que já aconteceu e acontece ainda. É preciso avisar às pessoas que essa imortalidade que se sente não existe no detalhe, mas somente no princípio. Enquanto a criança vive é que a vida é imortal. Vejam o corpo morto da criança... A imortalidade não passa por ele; pára e o contorna. Este é o enigma do esquecimento, de um imaginário social que consente na ave-bala atingindo todo um futuro que não se realiza mais. Na antecipação de um futuro é que vivemos o presente.
São os educadores e os legisladores que deveriam se sentir feridos nessas mortes sem sentido. São eles que poderiam viver toda a intensidade de uma indignação, na medida em que trabalham com esse futuro antecipado. Se esse futuro está barrado, como reconhecer uma economia sem ética, apoiada em uma tecnocracia de triunfo de números, que divide as crianças brasileiras em “humilhadas e ofendidas”, de um lado, e de outro “privilegiadas e excessivamente protegidas”? Essa divisão alimenta a violência e o ódio. E é, principalmente, covarde.
A violência silenciosa, que se esgueira apenas no limiar da consciência social, nos esvazia de poder imaginar que nossas vidas são parasitárias dessas mortes. É sobre o isolamento imposto aos nossos irmãos que se constrói a ave-bala, os grupos de extermínio, pois nossos irmãos não reproduzem as “significações culturais” que queremos impor como “a verdade”, com a lógica binária dos ditadores, a lógica do Tudo ou Nada.
Circe Vital Brazil. O enigma da bala assassina. In:
Jornal do Brasil, 23/9/1990, p. 4 (com adaptações).
De acordo com o que é informado no texto, assinale a opção correta.
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