Magna Concursos
1697222 Ano: 2010
Disciplina: Português
Banca: VUNESP
Orgão: Câm. Barretos-SP
Desde o tempo em que andava de patinete (mas não me lembro de ter andado de patinete.), ouço a teoria de que é preciso estimular o transporte coletivo. Que o trânsito só vai ter solução quando as pessoas deixarem o carro em casa. Depois de crescido, tornei-me um daqueles que não vão a pé nem para comprar pão na padaria da esquina (mas não costume ir à padaria.) Percebi logo a vantagem imensa de andar de carro, mesmo num congestionamento: é a sensação de privacidade, de proteção, o que mais me prende ao uso do automóvel. " Nunca saí de casa sem ter levado porrada", disse o escritor Pedro Nava, num momento de amargura. Embora isso também aconteça com quem dirija, há um pouco mais de segurança dentro de nossa armadura individual, feita de ferro e borracha sobre rodas. Gosto mais do carro do que outros meios de transporte.
Antigamente, o status social se media pelo comprimento dos automóveis: limusines, "Galaxies", rabos de peixe. Hoje, talvez com mais coerência, o status se mede pela altura. Pajeros, Land Rovers e coisas parecidas circulam pelo asfalto das cidades, como se desbravassem amazônias já desmatadas. Alguém, que não consigo ver, me ignora do alto da cabine. E me impede de ver, também, se o sinal lá na frente mudou de cor, se há algum carro enguiçado na esquina.
Tanques, caminhões ou carros blindados, não importa: há como que uma ruralização, que também é uma militarização visual da nossa vida urbana. Os carros já tinham prioridade sobre o pedestre. De uns tempos para cá, o cenário das cidades vai deixando de ter até aparência civil. Para diferenciar-se do motoqueiro plebeu, os pilotos de Harley Davidson e outras máquinas usam capacetes da Segunda Guerra, Jovens, mesmo os mais pacíficos, aderiram aos coturnos e se cobrem com rebites de metal. São os manobristas e os seguranças quem mais parecem seguir o figurino clássico (paletó e gravata.) do cidadão "de bem". Esqueci-me dos políticos, mas vá lá. Muitos burgueses- no velho sentido de "habitantes do burgo" - vestem-se hoje como lenhadores ou sitiantes.
Leio agora que a prefeitura pretende proibir o estacionamento na maior parte das ruas do chamado "centro expandido". Aprovo a medida, como um fumante que torcesse pela proibição do cigarro nos restaurantes. Sou viciado em andar de carro e sei do pequeno efeito das campanhas de cidadania sobre mim. Convenci-me de que o mero estímulo ao transporte coletivo (mesmo se fosse facílimo e de boa qualidade.) não mudaria a atitude das pessoas como eu. Não é que o transporte público deva melhorar apenas. A vida de quem recorre ao transporte individual é que vai ter de piorar (ainda mais) para que um bom número de automóveis fique na garagem. Eis, aliás, um fenômeno que comprova as velhas leis da oferta e da procura, assim como a crença liberal na "mão invisível do mercado": conheço pessoas que já desistiram de ter carro em São Paulo. Adaptam a vida a uma área menor da cidade, andam a pé, pedem caronas aprendem o trajeto de um ônibus e o caminho das melhores calçadas. Num passe de mágica, o inferno do trânsito deixou de lhes dizer grande respeito. Invejo-os, como um drogado que admira os recuperados do seu vício.
Tenho esperança na proibição do estacionamento nas ruas de São Paulo - mais justa, aliás, que a ideia do pedágio urbano. Não porque vá melhorar o trânsito, mas porque tornará mais cara e difícil a vida do motorista. Também torço pela derrubada do minhocão. Quem sabe um trenzinho silencioso, entre canteiros verdes, recompensasse com beleza a vida dos que moram com o nariz naquele elevado? A medida pioraria o trânsito? Bem provável que sim. Mas talvez o trânsito deva mesmo ser piorado. Quem sabe é dose que me fala para abandonar o vício.
( Marcelo Coelho, Folha de S. Paulo, 26.05.2010. Adaptado)
(..) nossa armadura individual, feita de ferro e borracha. Nesse techo, o termo de estabelece entre os termos da oração uma relação de
 

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