Prendas domésticas
"Hoje há uma ascensão social incrível. A empregada doméstica, infelizmente não existe mais. Quem teve este animal, teve. Quem não teve, nunca mais vai ter."
Na imprensa, o que mais chocou na frase do professor Delfim Netto em um programa de televisão foi o "animal" em extinção. Mas pior foi o "infelizmente".
Com sinceridade contundente, o professor não exagera ao dizer que a sociedade brasileira se habituou a conviver com empregadas domésticas como animais, algumas até de estimação, tratados com carinho e mimos, como os escravos que serviam na casa grande. Só que agora ganham algum dinheiro e não precisam fugir da senzala para trabalhar em outra casa e mudar de feitor.
O que Delfim lamenta que esteja acabando é essa empregada doméstica à disposição 24 horas por dia, como uma escrava remunerada. Felizmente para nós, estamos aprendendo a comprar um serviço – em vez de alugar uma pessoa. As diaristas já mereceram até um seriado de televisão de sucesso.
Elas fazem a comida, arrumam a casa, lavam e passam a roupa, e vão embora – para vender seus serviços em outra casa. Sem participar das intimidades e fofocas da família, sem fidelidade canina, sem abusos e humilhações – mas com a obrigação de um serviço melhor e mais rápido, para ter mais tempo para trabalhar em outras casas e melhorar a renda.
É assim que vivem, há muitos anos milhões de faxineiras, cozinheiras e baby-sitters nos Estados Unidos, profissionais autônomos que ganham por hora ou por diária e conseguem viver com conforto e dignidade em suas casas, com suas famílias.
Quem faz a nossa comida, limpa e arruma a nossa casa, cuida de nossos filhos, presta serviços de grande responsabilidade e merece, não só um pagamento justo, mas todo respeito e às vezes, eterna gratidão. Muitas vezes há mais nobreza em servir do que em ser servido.
Mas só vamos ter certeza dessa ascensão social incrível quando as imobiliárias começarem a lançar apartamentos de luxo sem quarto de empregada, como na Europa e EUA. Até lá essa arcaica e perversa forma de convivência social brasileira ainda tem muito chão para limpar.
Nelson Motta (texto adaptado) - O Estado de S. Paulo, 22 de abril de 2011.
Observe o cartum abaixo:

A situação relatada no texto IV e ilustrada pelo cartum é a