Dia da Lembrança
Por Nílson Souza
- Não é que tem até isso? No Brasil, o dia 26 de dezembro, é celebrado como o Dia da
- Lembrança. Segundo a tese que justifica a data, é o dia de lembrar coisas boas e ruins num
- momento de reflexão pós-Natal. Claro que a explicação simplista serve para qualquer dia
.
- Sempre lembramos coisas boas e ruins, mesmo quando queremos esquecê-las.
- Mas tem muita coisa que a gente esquece para sempre. Pelo menos é o que dizem os
- cientistas que se debruçaram sobre o assunto e concluíram que o esquecimento abre espaço nos
- nossos neurônios para novos conhecimentos. Esquecer, portanto, seria benéfico para os
- humanos. Com todo respeito à ciência e a todos aqueles que estudam os mistérios do cérebro,
- tenho as minhas dúvidas. Cada vez que esqueço algo que gostaria de lembrar, gasto um tempão
- espremendo os miolos e tentando fazer alguma associação de ideias para resgatar o nome ou o
- assunto evadido.
- Nomes são um tormento. Quase sempre que a gente é apresentado a uma pessoa
- desconhecida acaba esquecendo o nome dela logo em seguida. Por que isso acontece? Vem lá
- novamente a ciência para dizer que a súbita desatenção se deve ao fato de nos concentrarmos
- nos procedimentos da apresentação, no aperto de mão, na preocupação em saudar a outra
- pessoa com palavras gentis, ou de dizer a ela o nosso próprio nome. A novidade, então, se perde
- no limbo da formalidade. Faz sentido.
- Outra situação constrangedora é aquele encontro casual de amigos que não se veem há
- anos, mas se identificam pelos rostos familiares, pela voz – e pelo pânico de não lembrar:
- – E aí, garoto, como vai? – costuma dizer o mais eufórico, em voz alta e entusiasmada.
- Sempre que ouço uma saudação dessas, nem preciso olhar para as figuras que se abraçam
- para concluir: não são garotos e, muito provavelmente, um esqueceu o nome do outro. Claro
- que isso também acontece comigo.
- Não são poucas as vezes em que eu gostaria de ser, pelo menos por alguns minutos, o
- célebre personagem do argentino Jorge Luis Borges – Funes, o Memorioso. Irineu Funes tinha
- uma memória prodigiosa, se lembrava nos mínimos detalhes de tudo o que havia testemunhado
- em todos os dias de sua vida, mas era incapaz de pensar.
-
– Pensar, escreveu Borges, é esquecer diferenças, é generalizar, é abstrair.
- Neste Dia da Lembrança, lembro desse emblemático conto de Borges para concluir que ler
- boas histórias estimula o cérebro a funcionar melhor. É o que diz a ciência – e sobre isso acho
- que eu e você (que chegou ao final desta crônica) concordamos, não é mesmo?
(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/nilson-souza/noticia/2023/12/dia-da-lembranca- – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o trecho “Outra situação constrangedora é aquele encontro casual de amigos”, retirado do texto, assinale a alternativa em que a palavra é classificada como adjetivo.