Tocando a real
Estamos voltando do clube.
- Papai, você sabe que eu quero ser jogador de futebol, né?
Não é a primeira vez que ele diz isso, e mais uma vez me finjo de morto.
Tem duas coisas com as quais você precisa se vigiar constantemente com um filho: palavrão e sincericídio. Palavrão é óbvio, tudo que ele ouvir de você vai repetir por aí, e a quantidade de situações constrangedoras que advêm, desse fato é imensa. Sincericídio é algo que vai custar caro à vista e a prazo, já que você tem que lidar com as consequências pelo resto da vida.
Não é que ele jogue mal, joga até bem, vai fazer bonito na escola, na faculdade, no jogo entre casados e solteirões, na pelada da firma. Daí a ganhar a vida com isso, acho difícil. Mas eu vou levando a questão na maciota, para não decepcionar o menino.
- Como é que faz pra jogar num time grande, tipo o Fluminense?
Explico que ele pode continuar jogando no clube e se ele for muito bom, muito bom mesmo, mais cedo ou mais tarde ele acaba num time grande.
- Mas quando é que eles vão saber que eu existo?
Esse é um pensamento recorrente que tenho, só que em relação à Gisele Bündchen. Quando é que ela vai saber que eu existo? Deixa pra lá. Explico pro Martin que os clubes grandes, como o Fluminense ou o Flamengo, têm olheiros, que ficam atentos aos bons jogadores, onde estiverem. Um grande talento nunca passa inadvertido, acrescento com gravidade. A explicação funciona, ele parece conformado. Continuamos caminhando.
- É o Barcelona? Será que o olheiro deles tá por aqui e vai me levar para lá?
A pergunta me pega distraído, estava concentrado no meu pensamento recorrente. Respondo de bate-pronto, sem pensar:
- Você no Barcelona? Nem por um c...!
Consegui juntar palavrão com sincericídio. Isso, sim, é talento. Espero que um dia a Gisele Bündchen fique sabendo.
(AVERSA, Leo. Crônicas de pai. Rio de Janeiro. Intrinseca, 2021, p. 246-248.)
Em "Papai, você sabe que eu quero ser jogador de futebol, né?", a pontuação final da proposição expressa