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2631339 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: DIRENS Aeronáutica
Orgão: EPCAR
Provas:

TEXTO IV

Leia, a seguir, um texto cuja reflexão pode ser relacionada aos fatos apresentados nos textos anteriores desta prova.

A produção cultural do corpo

Pensar o corpo como algo produzido na e pela

cultura é, simultaneamente, um desafio e uma

necessidade. Um desafio porque rompe, de certa forma,

com o olhar naturalista sob o qual muitas vezes o corpo é

5 observado, explicado, classificado e tratado. Uma

necessidade porque ao desnaturalizá-lo revela,

sobretudo, que o corpo é histórico. Isto é, mais do que um

dado natural cuja materialidade nos presentifica no

mundo, o corpo é uma construção sobre a qual são

10 conferidas diferentes marcas em diferentes tempos,

espaços, conjunturas econômicas, grupos sociais,

étnicos, etc. Não é portanto algo dado a priori nem

mesmo é universal: o corpo é provisório, mutável e

mutante, suscetível a inúmeras intervenções consoante o

15 desenvolvimento científico e tecnológico de cada cultura

bem como suas leis, seus códigos morais, as

representações que cria sobre os corpos, os discursos

que sobre ele produz e reproduz.

Um corpo não é apenas um corpo. É também o seu

20 entorno. Mais do que um conjunto de músculos, ossos,

vísceras, reflexos e sensações, o corpo é também a

roupa e os acessórios que o adornam, as intervenções

que nele se operam, a imagem que dele se produz, as

máquinas que nele se acoplam, os sentidos que nele se

25 incorporam, os silêncios que por ele falam, os vestígios

que nele se exibem, a educação de seus gestos... enfim,

é um sem-limite de possibilidades sempre reinventadas e

a serem descobertas. Não são, portanto, as semelhanças

biológicas que o definem mas, fundamentalmente, os

30 significados culturais e sociais que a ele se atribuem.

(GOELLNER, Silvana Vilodre. “A produção cultural do corpo”. In: LOURO, Guacira Lopes (Org.). Corpo, gênero e sexualidade; um debate contemporâneo na educação. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 28-29.)

TEXTO I

Você lerá a seguir trechos – com ortografia atualizada – extraídos do jornal A Gazeta de notícias, da cidade do Rio de Janeiro, que publicou, dos dias 22 a 25 de julho de 1895, a notícia de um assassinato e os desdobramentos da investigação policial sobre o fato.

Dia 22

Às 2 ½ horas da madrugada de ontem, um indivíduo,

que corria da rua da Relação em direção à repartição da

polícia, caiu morto junto à porta principal do edifício,

apresentando no peito um profundo ferimento.

5 Ato contínuo um outro indivíduo, que também se

achava ferido no rosto, parou junto ao cadáver procurando

certificar-se se o indivíduo que ali se achava caído estava

com vida.

Tornando-se o referido indivíduo suspeito, foi

10 imediatamente preso e apresentado ao Sr. Dr. Carijó,

1º delegado auxiliar.

/.../

Ontem pela manhã apareceram no necrotério três

praças da brigada policial, entre os quais se achava

15 Antonio Primeiro, pertencente à 6ª companhia, que

declarou reconhecer o cadáver como o de João Ferreira

da Silva, ex-corneta da brigada policial, de onde teve baixa

há cerca de três meses.

/.../

20_ Silva era casado com Maria Virginia da Costa, com a

qual residia, em companhia de dois filhos menores, na

casinha nº 19 da estalagem da rua do Rezende, nº 109.

Segundo nos informou Maria Virginia, seu marido era

homem pacato, de bons costumes e trabalhava como

25 servente de pedreiro em umas obras da rua Francisco

Muratori.

Disse mais que seu marido havia estado no botequim

no 64 da referida rua, ponto de reunião de indivíduos

suspeitos, não regressando mais à casa.

Dia 23

30 O Sr. Dr. Carijó, 1º delegado auxiliar, auxiliado por

seu escrivão o Sr. major Luiz de Andrade, já descobriu o

fio do misterioso assassinato de João Ferreira da Silva,

perpetrado na rua da Relação, na madrugada de 21 do

corrente mês.

35 Já depuseram no inquérito muitas testemunhas, entre

as quais se acham os dois soldados de polícia que

rondaram a referida rua e a dos Inválidos, José Teixeira da

Silva, Balbino Ferreira de Oliveira, Pedro da Costa, Manuel

de Souza e Silva, Maria Regina da Costa e outras pessoas

40 que estiveram com o falecido no botequim nº 64 da rua do

Rezende, de onde saíram em serenata.

A autoridade policial espera em breve descobrir o

verdadeiro assassino para entregá-lo à ação da justiça.

Segundo trata C. Lombroso* em seu livro intitulado

45 L´Uomo delinquente, publicamos em seguida as tatuagens

verificadas no corpo de Manuel de Sousa e Silva pelos

Drs. Moraes Brito e Cunha Cruz.

Manuel de Sousa e Silva, de cor branca, com 21 anos

de idade, português, solteiro, morador à rua

50 Resende, nº 109.

Apresenta uma ferida incisa na região tenar**, dois

centímetros de extensão, dirigida de cima para baixo, de

dentro para fora, na mão esquerda; apresenta, entre

outras, as seguintes tatuagens: um crucifixo na face

55 anterior do braço esquerdo; um signo de Salomão, na face

externa do mesmo braço; as iniciais I. M. C. (Isaura Maria

da Conceição) isto no dorso da mão do mesmo lado; no

dorso da mão direita um signo de Salomão; na face

anterior do antebraço, do mesmo lado um coração, com

60 ápice para baixo, atravessado por uma seta, e um punhal

em cruz; na área representada pelo coração, as iniciais M.

S. S. (Manuel de Sousa e Silva); por baixo dessas iniciais,

e na mesma área, as iniciais S. E. S. (Sara Escaldina dos

Santos); por sobre o coração, na mesma face do braço,

65 uma estrela; sobre a estrela, uma fita com as iniciais M. S.

F. (Maria da Silva Fidalga); por sobre a fita as iniciais M. J.

R. C. (Maria Joaquina Rosa da Conceição); no peito, na

região precordial, um coração atravessado por dois

punhais em cruz. Uma figura de mulher e outra de homem,

70 em colóquio amoroso, na face anterior do braço direito.

*Cesare Lombroso (1835-1909) foi criminologista italiano, autor entre outros livros de L’uomo delinquente (1876), e muito influente na época, embora em boa parte desacreditado hoje. Achava que a criminalidade era hereditária, e que os criminosos podiam ser reconhecidos por certos traços e defeitos físicos, inclusive o uso excessivo de tatuagem.

** tenar: palma da mão.

Dia 24

Sobre o assassinato de João Ferreira da Silva,

perpetrado na rua da Relação, temos a acrescentar o

seguinte:

O Sr. Dr. Carijó, 1º delegado auxiliar, conseguiu

75 descobrir e prender todos os indivíduos que, na noite do

crime, estiveram em serenata com a vítima /.../.

O Sr. Dr. Souza Lima, lente* da Academia de

Medicina, requisitou ontem do Sr. Dr. Carijó a presença de

Manuel de Souza e Silva, o homem tatuado de que

80 tratamos ontem na nossa notícia.

À 1 hora da tarde, na aula de medicina legal, fez uma

pequena preleção aos seus alunos sobre os indivíduos

tatuados de que trata o professor Lombroso,

apresentando-lhes Souza e Silva como um dos indivíduos

85 que deviam estar sempre sob as vistas da polícia por isso

que os desenhos de tatuagem que apresentava no corpo

eram descritos pelo sábio escritor italiano em seu livro

L´Uomo delinquente, os quais demonstraram ser uma

cópia fiel dos que existiam no citado livro.

* lente: professor de escola superior ou secundária.

Dia 25

90 O Sr. Dr. Carijó, prosseguindo no inquérito sobre o

assassinato de João Ferreira da Silva, chegou à

conclusão de que o autor do crime foi Manuel de Souza e

Silva, vulgo Nené, o qual já cumpriu pena há anos

passados por crime de morte.

95 Nené é o indivíduo que, conforme noticiamos,

apresenta o corpo cheio de tatuagens.

/.../

Pelos depoimentos das testemunhas, vê-se que o

móvel do crime foram os ciúmes de Nené por causa de

100 uma mulher.

(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)

TEXTO II

Você lerá, a seguir, um trecho do livro O homem delinquente, de Cesare Lombroso, autor citado nas notícias dos dias 23 e 24 do Texto I.

Fisionomia dos criminosos

/.../ estudando a massa inteira desses infelizes,

como o fiz nas casas de detenção, conclui-se que, ainda

que não tenham sempre uma fisionomia rebarbativa* e

assustadora, têm eles uma toda particular e quase

5 especial a cada forma de criminalidade.

Entre os violadores (quando não são cretinos),

quase sempre os olhos são salientes, a fisionomia é

delicada, os lábios são volumosos. A maior parte é frágil,

loura, raquítica e, às vezes, corcunda. /.../

10 Os homicidas, os arrombadores, têm cabelos

crespos, são deformados no crânio, têm possantes

maxilares, zigomas** enormes e frequentes tatuagens;

são cobertos de cicatrizes na cabeça e no tronco.

Os homicidas habituais têm o olhar vidrado, frio,

15 imóvel, algumas vezes sanguíneo e injetado; o nariz,

frequentemente aquilino ou adunco como o das aves de

rapina, sempre volumoso; os maxilares são robustos; as

orelhas, longas; os zigomas largos; os cabelos crespos

são abundantes e escuros. Com frequência, a barba é

20 escassa, os dentes caninos muito desenvolvidos; os

lábios, finos.

/.../

Em geral, muitos criminosos têm orelhas de abano,

cabelos abundantes, barba escassa, sinos frontais*** e

25 maxilares enormes, queixo quadrado e saliente, zigomas

largos /.../.

* rebarbativa: desagradável, rude, carrancuda.

** zigomas: bochechas.

*** sinos frontais: seios da face.

(LOMBROSO, Cesare. O homem delinquente. Tradução, atualização, notas e comentários de Maristela Tomasini e Oscar Antonio Corbo Garcia. Porto alegre: Ricardo Lenz Editor, 2001, p. 247-248)

TEXTO III

Leia agora um trecho de um texto de Machado de Assis, do dia 28 de julho de 1895. Para escrever seu texto, Machado baseou-se nos fatos noticiados na semana anterior pelo jornal A Gazeta de notícias.

A SEMANA – 165

Raramente leio as notícias policiais, e não sei se

faço bem. São monótonas, vulgares, a língua não é boa;

em compensação, podem achar-se pérolas nesse

esterco. Foi o que me sucedeu esta semana, deixando

5 cair os olhos na notícia do assassinato de João Ferreira

da Silva. Não foi o nome da vítima que me prendeu a

atenção, nem o do suposto assassino, nem as demais

circunstâncias citadas no depoimento das testemunhas

/.../

10 /.../ O que me atraiu nesse crime foi a força do amor,

não por ser o motivo da discórdia e do ato, – há muito

quem mate e morra por mulheres – mas por apresentar

na pessoa de Manuel dos Santos, o suposto assassino,

um modelo particular de paixões contrárias e múltiplas.

15 Foram as tatuagens do corpo do homem que me

deslumbraram.

As tatuagens são todas ou quase todas amorosas.

Braços e peito estão marcados de nomes de mulheres e

de símbolos de amor. Lá estão as iniciais de uma Isaura

20 Maria da Conceição, as de Sara Esaltina dos Santos, as

de Maria da Silva Fidalga, as de Joaquina Rosa da

Conceição. Lá estão as figuras de um homem e de uma

mulher em colóquio amoroso; lá estão dois corações, um

atravessado por uma seta, outro por dois punhais em

25 cruz...

Quando os médicos examinaram este homem

fizeram-no com Lombroso na mão, e acharam nele os

sinais que o célebre italiano dá para se conhecer um

criminoso nato; daí a veemente suposição de ser ele o

30 assassino de João Ferreira. Eu, para completar o juízo

científico, mandaria ao mestre Lombroso cópia das

tatuagens, pedindo-lhe que dissesse se um homem tão

dado a amores, que os escrevia em si mesmo, pode ser

verdadeiramente criminoso. /.../

(ASSIS, Machado de. A Semana – 165. Edição, apresentação e notas por John Gledson. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 4, n.9, p. s-s, jul.-dez. 2021.- com adaptações.)

Sobre as relações propostas entre argumentos do Texto IV e os demais textos desta prova, assinale a alternativa INCORRETA.

 

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