Texto 5
Cinema
01 Na grande sala escura,
02 só teus olhos existem para os meus:
03 olhos cor de romance e de aventura,
04longos como um adeus.
05
06Só teus olhos: nenhuma
07atitude, nenhum traço, nenhum
08gesto persiste sob o vácuo de uma
09grande sombra comum.
10
11E os teus olhos de opala,
12exagerados na penumbra, são
13para os meus olhos soltos pela sala,
14uma dupla obsessão.
15
16Um cordão de silhuetas
17escapa desses olhos que, afinal,
18são dois carvões pondo figuras pretas
19sobre um muro de cal.
20
21E uma gente esquisita,
22em torno deles, como de dois sóis,
23é um sistema de estrelas que gravita:
24— são bandidos e heróis;
25
26são lágrimas e risos;
27são mulheres, com lábios de bombons;
28bobos gordos, alegres como guizos;
29homens maus e homens bons...
30
31É a vida, a grande vida
32que um deus artificial gera e conduz
33num mundo branco e preto, e que trepida
34nos seus dedos de luz...
ALMEIDA, Guilherme de. Toda Poesia. 2 ed. São Paulo: Martins, 1955. v.5.p. 60-6
Caso o trecho destacado em "E os teus olhos de opala, / exagerados na penumbra, são / para os meus olhos soltos pela sala, / uma dupla obsessão [...]" (ls.11-14), fosse substituído por um pronome oblíquo, seria mantida a atenção às regras de colocação pronominal - na variedade padrão da língua portuguesa - e ao valor temporal da forma verbal "são" na seguinte proposta de reescrita: